A savana mais biodiversa do planeta.
O bioma que o Brasil escolheu não conhecer antes de destruir.
Antes de entender o que o Cerrado perdeu, é preciso entender o que ele é. E o que ele é não cabe na imagem que o Brasil construiu de si mesmo.
O Cerrado ocupa, ou ocupava, mais de 2 milhões de quilômetros quadrados no centro do Brasil — uma extensão maior do que a Índia. Suas árvores são tortas. Sua vegetação é baixa e esparsa em partes, densa em outras. Sua paisagem não tem a grandiosidade fotogênica da Amazônia nem o dramatismo costeiro da Mata Atlântica. Para quem não sabe olhar, parece pobre. Para quem sabe, é um dos lugares mais extraordinários que a evolução produziu neste planeta.
O Cerrado é a savana tropical mais rica em biodiversidade do mundo. Não uma das mais ricas — a mais rica. Nenhuma outra formação savânica em nenhum continente concentra tanto endemismo: mais de 40% de suas plantas vasculares não existem em nenhum outro lugar da Terra. Em espécies vegetais são mais de 12.000, das quais cerca de 4.400 são endêmicas. Em aves, mais de 900 espécies. Em peixes de água doce, mais de 1.200. O inventário de invertebrados ainda não terminou.
A estratégia de sobrevivência das plantas do Cerrado é uma das mais sofisticadas da natureza. Raízes que descem doze metros em busca de água nos aquíferos profundos. Casca espessa, corticosa, que resiste ao fogo recorrente e protege o câmbio vivo abaixo da superfície carbonizada. Flores que brotam do tronco aparentemente morto antes que a primeira chuva da temporada chegue. O Cerrado desenvolveu ao longo de milhões de anos uma resposta elaborada para viver no limite — e nesse processo tornou-se algo que a biologia ainda não terminou de catalogar.
O Cerrado não é bonito do jeito que a floresta é bonita. Mas ele bebe a chuva, guarda nos aquíferos e devolve pelos rios. Quando ele desaparece, os rios somem — não imediatamente, mas inevitavelmente.
Perspectiva da ciência hídrica brasileiraDas oito principais bacias hidrográficas brasileiras, seis têm suas nascentes no Cerrado — São Francisco, Araguaia-Tocantins, Parnaíba, Paraná, Paraguai e parte da bacia Amazônica. Quando chove sobre o Planalto Central, a água não escorre toda de volta ao mar: parte infiltra, alimenta os aquíferos e brota, meses depois, nas cabeceiras dos rios que abastecem metade do Brasil. O Cerrado não é apenas biodiversidade. É infraestrutura hídrica continental.
Há uma história paralela ao desmatamento — a dos cientistas que correram contra o tempo para registrar o que existia antes que desaparecesse. No Cerrado, essa história tem um nome central.
Ezechias Paulo Heringer dedicou mais de seis décadas à botânica do Cerrado numa época em que o bioma era tratado pela ciência — e pela política — como terra de segunda categoria. Nascido em 1906, trabalhou como botânico do Jardim Botânico de Brasília e produziu um inventário florístico do Planalto Central que ainda hoje é referência fundamental para pesquisadores. Descreveu centenas de espécies, muitas das quais hoje carregam seu nome.
O que distinguia Heringer não era apenas a competência taxonômica — era a consciência de urgência. Ele entendia que a chegada da agricultura mecanizada ao Cerrado a partir dos anos 1960 significava que o tempo disponível para documentar o bioma era muito menor do que a ciência normalmente demanda. Heringer coletava, descrevia e publicava com uma velocidade que seus contemporâneos consideravam incomum. Com o tempo, ficou claro que ele estava certo sobre a urgência: boa parte das áreas onde coletou nos anos 1960 é hoje monocultura de soja.
Seu trabalho estabeleceu as bases para a compreensão científica da biodiversidade do Cerrado e abriu caminho para pesquisadores que formariam o núcleo da ecologia do Cerrado no Brasil. A ironia trágica é que quanto mais a ciência entendia o bioma, mais rápido ele era destruído — como se o conhecimento e a devastação corressem em paralelo sem nunca se cruzar nas decisões políticas.
Quando o centro do Cerrado já estava convertido, a pressão migrou para o norte — onde o bioma ainda existia em extensão, a fiscalização era menor, a terra mais barata e os aquíferos ainda cheios.
MATOPIBA é o acrônimo formado pelas iniciais dos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. No encontro desses quatro estados, no norte do Cerrado, encontra-se uma das últimas extensões significativas do bioma ainda relativamente intactas — ou que estavam até os anos 2000. A altitude das chapadas, a profundidade dos aquíferos e a adaptabilidade da agricultura moderna tornaram essa região a fronteira agrícola mais cobiçada do Brasil no século XXI.
A velocidade do desmatamento no MATOPIBA nas últimas décadas é uma das mais altas registradas no Cerrado. Comunidades tradicionais — quebradeiras de coco babaçu, agricultores familiares, quilombolas — foram pressionadas e em muitos casos expulsas de terras que ocupavam há gerações. Os rios que nascem nas chapadas do Piauí e da Bahia, cuja regularidade de vazão dependia da cobertura vegetal das nascentes, começaram a apresentar variações crescentes: secas mais longas, cheias mais violentas, um ciclo hídrico progressivamente desregulado.
O Cerrado é o bioma brasileiro com menor percentual de área protegida em relação à sua extensão original. Enquanto a Amazônia conta com mais de 50% de sua área coberta por Unidades de Conservação e Terras Indígenas, o Cerrado tem menos de 20% formalmente protegidos. O Código Florestal exige apenas 20% de reserva legal nas propriedades do Cerrado — contra 80% na Amazônia. É o bioma mais destruído do Brasil em relação à sua proteção legal.
Existe uma consequência do desmatamento do Cerrado que não aparece nos números de área destruída — porque ela se manifesta não onde o bioma foi removido, mas centenas de quilômetros abaixo, onde os rios deveriam chegar e não chegam mais.
O funcionamento hidrológico do Cerrado é diferente do de uma floresta ripária. A água não fica apenas nas margens dos rios — ela infiltra no solo das chapadas, percola pelos aquíferos profundos e emerge, meses depois, nas cabeceiras dos rios. As veredas — formações de buritis e vegetação herbácea que marcam as nascentes do Cerrado — são o sinal visível desse processo: onde há vereda, há água subterrânea aflorando. São as caixas-d'água naturais do Planalto Central.
Quando o Cerrado é substituído por soja, o que acontece hidricamente é o seguinte: a soja é colhida. O solo fica exposto. A água da chuva escoa rápida pela superfície em vez de infiltrar devagar pela vegetação nativa. Os aquíferos não são recarregados na mesma proporção. A longo prazo — e no Cerrado "longo prazo" pode ser uma ou duas décadas — os rios que dependiam dessa recarga começam a apresentar variações crescentes de vazão. Alguns param de fluir na estiagem. Outros carregam sedimentos que a vegetação antes retinha.
Este é o paradoxo central da destruição do Cerrado: o agronegócio que o converte precisa de água para produzir. A irrigação no MATOPIBA retira água dos mesmos aquíferos que o desmatamento está deixando de recarregar. O modelo destrói a base hídrica da qual ele próprio depende. Não é apenas uma contradição ecológica — é uma contradição econômica. Uma conta que começou a ser cobrada em algumas bacias do Piauí e da Bahia, e que vai chegar a outras na medida em que o desmatamento avança.
Nenhuma savana tropical no mundo concentra tanta vida quanto o Cerrado. Nenhuma é destruída com tanta pressa e tão pouco luto.
Voz editorial BERAO Cerrado chegou ao século XXI com pouco mais de metade de sua cobertura original em pé. É um número que não deveria ser visto com alívio — deveria ser visto como limite. O que resta é fragmentado, pressionado e subprotegido por uma legislação que trata o bioma como se valesse menos do que a Amazônia. Mas ele abastece os mesmos rios. Sustenta a mesma biodiversidade excepcional. E quando suas nascentes secarem, não haverá decreto capaz de fazê-las brotar novamente.
Estudar o Cerrado é um ato político. É recusar a invisibilidade que o bioma recebeu durante décadas de política ambiental e comunicação cultural. É entender que conservar o que resta não é romantismo — é garantir que os rios do Brasil continuem fluindo nas próximas gerações.