A maior planície alagável do mundo funciona pelo pulso das cheias.
Em 2020, o fogo interrompiu esse ritmo de um modo que ainda não terminou.
O Pantanal não é apenas um lugar. É um ritmo. Um ciclo de inundação e vazante que determina tudo — onde os animais estão, o que as plantas fazem, quando os peixes sobem os rios, onde as aves nidificam. Entender o Pantanal é entender o que significa um ecossistema regulado pelo tempo, não pelo espaço.
A planície pantaneira ocupa cerca de 150.000 quilômetros quadrados no Brasil, distribuídos pelos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com extensões no Paraguai e na Bolívia que somam mais de 200.000 quilômetros quadrados ao todo. É a maior área úmida tropical do planeta — maior do que países inteiros, maior do que qualquer outro sistema de planície de inundação do mundo. Seu terreno é extraordinariamente plano: uma diferença de altitude de apenas alguns metros separa as áreas que ficam permanentemente secas das que ficam submersos por meses a cada ano.
O mecanismo que governa tudo isso é chamado de pulso de inundação. Entre novembro e março, as chuvas das cabeceiras do Pantanal — nas chapadas do Mato Grosso e da Bolívia — derramam volumes imensos de água sobre a planície. Os rios Paraguai, Cuiabá, Taquari e dezenas de tributários transbordam em câmera lenta, inundando campos, matas de galeria e baías num avanço que pode durar semanas. No pico da cheia, até 80% da planície está submersa. Entre abril e outubro, a água recua — a vazante — revelando campos abertos onde a fauna se concentra em torno dos lagos residuais com uma densidade que poucas regiões do planeta conseguem igualar.
Esse pulso não é uma perturbação para o ecossistema — é sua razão de ser. As espécies do Pantanal evoluíram em torno desse ritmo. Os peixes sobem para os campos inundados para se alimentar e desovar. As aves migratórias chegam com a vazante para nidificar às margens dos lagos que se formam. O jacaré aproveita a concentração de peixes na estiagem para acumular as reservas que precisará na cheia seguinte. O capivara, a lontra, a ariranha — cada espécie tem seu calendário calibrado ao pulso. Quando o pulso muda, tudo muda junto.
O Pantanal tem a maior concentração de fauna silvestre do Brasil — e uma das maiores do mundo. Não porque seja o bioma mais biodiverso, mas porque é um dos únicos lugares do país onde os animais ainda existem em densidades que dão ideia do que o Brasil inteiro já foi.
A estatística mais citada sobre o Pantanal é a dos jacarés: estima-se que a planície abriga cerca de 10 milhões de jacarés-do-pantanal — a maior população de crocodilianos do mundo. O número impressiona, mas o que ele representa é ainda mais significativo: em todas as outras regiões do Brasil, a pressão de caça, desmatamento e fragmentação reduziu as populações de grandes vertebrados a frações do que eram. No Pantanal, a combinação de baixa densidade humana, grandes propriedades rurais com pecuária extensiva e a própria inundabilidade da planície — que dificulta o acesso e a agricultura — preservou densidades animais que não existem em nenhum outro bioma brasileiro.
A onça-pintada encontrou no Pantanal seu último refúgio de grande escala no Brasil. A planície abriga a maior população contígua de onças-pintadas das Américas — estimada em mais de 4.000 indivíduos numa área que ainda permite deslocamentos de dezenas de quilômetros sem cruzar uma estrada ou uma cerca. Para uma espécie que precisa de território de 25 a 150 quilômetros quadrados por indivíduo, o Pantanal é insubstituível. Não há outro lugar no Brasil — talvez nas Américas — que ofereça o mesmo.
Tuiuiús, capivaras, lontras, ariranhas, tamanduás-bandeira, antas, lobos-guará, cervo-do-pantanal — cada uma dessas espécies existe no Pantanal em números que evocam o que a Mata Atlântica e o Cerrado já foram antes da ocupação intensa. O Pantanal não é apenas um ecossistema preservado. É um arquivo do que a natureza brasileira era, e uma evidência do que ela pode ser novamente se tratada com a seriedade que merece.
O Pantanal não é o bioma mais biodiverso do Brasil. É o mais vivo — no sentido de que ainda pulsa com a presença de grandes animais em densidades que o resto do país perdeu há gerações.
Voz editorial BERAA conservação do Pantanal não aconteceu por acaso. Aconteceu porque, décadas antes de o bioma se tornar um símbolo internacional, algumas pessoas decidiram que documentar e proteger eram atos que precisavam acontecer antes que a destruição tornasse as duas coisas irrelevantes.
Maria Tereza Jorge Pádua é uma das figuras mais importantes da história ambiental brasileira — e uma das menos conhecidas fora dos círculos da conservação. Trabalhou por décadas no IBDF, o antecessor do IBAMA, e foi responsável pela criação e consolidação de dezenas de unidades de conservação no Brasil, incluindo parques nacionais no Pantanal, na Amazônia e no Cerrado.
Seu método era rigoroso e pragmático ao mesmo tempo: identificar as áreas de maior valor biológico, mapear as pressões sobre elas, e criar a proteção legal antes que as pressões se tornassem irreversíveis. Em uma época em que o governo brasileiro priorizava a abertura de fronteiras agrícolas e a integração de territórios, ela operava dentro do sistema para criar ilhas de proteção que sobreviveriam a vários governos.
No Pantanal, seu trabalho resultou na criação do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense em 1981 — uma área de 135.000 hectares que se tornou a âncora de proteção do bioma e, mais tarde, parte do complexo que levou ao reconhecimento da Reserva da Biosfera do Pantanal pela UNESCO. Jorge Pádua foi também uma das autoras do sistema brasileiro de categorias de unidades de conservação, que estrutura até hoje a proteção de ecossistemas em todo o país. É uma das arquitetas invisíveis do Brasil que ainda existe.
O fogo não é estranho ao Pantanal. Queimadas naturais fazem parte da história do bioma. O que aconteceu em 2020 foi diferente — em escala, em intensidade e nas condições que o tornaram possível.
O incêndio de 2020 no Pantanal não foi um evento isolado. Foi o resultado de uma convergência de fatores que, individualmente, o bioma seria capaz de absorver — mas que juntos produziram algo que a planície não tinha registrado em décadas de monitoramento. A seca de 2019 e 2020 foi uma das mais intensas da série histórica: o rio Paraguai atingiu níveis mínimos recordes em vários pontos, campos que normalmente ficavam úmidos durante boa parte do ano secaram completamente, e a biomassa vegetal ressequida acumulou-se em volumes excepcionais.
Quando os focos de incêndio começaram — muitos deles originados em queimadas para limpeza de pasto nas fazendas do entorno — o material combustível disponível era extraordinário, e as condições climáticas, com ventos secos e temperatura elevada, facilitaram a propagação. Entre janeiro e outubro de 2020, o INPE registrou mais de 22.000 focos de incêndio no Pantanal. A área queimada superou 4,4 milhões de hectares — cerca de 30% de todo o bioma brasileiro em um único ano. Para efeito de comparação, em anos normais o Pantanal registra entre 200.000 e 500.000 hectares queimados.
O incêndio de 2020 matou centenas de milhares de animais diretamente — estimativas de organizações conservacionistas falam em mais de 17 milhões de animais vertebrados mortos ou deslocados só nos primeiros meses. Jacarés, capivaras, aves nidificantes e peixes em lagos que secaram foram os mais afetados. Além da mortalidade direta, o incêndio destruiu habitats de nidificação, comprometeu a cobertura vegetal que protege os solos da erosão e introduziu espécies de gramíneas exóticas que, ao colonizar as áreas queimadas, aumentam o risco de incêndios futuros num ciclo de retroalimentação.
A recuperação é real, mas não é uniforme. O Pantanal tem capacidade de regeneração notável em áreas onde o solo preservou sua estrutura e onde a cobertura vegetal nativa consegue rebrotar antes que as espécies exóticas se estabeleçam. Populações de jacarés e capivaras mostraram recuperação rápida nas áreas que escaparam dos incêndios mais intensos. Mas áreas que sofreram queimadas repetidas nos anos anteriores a 2020, ou onde gramíneas africanas como o braquiária já dominavam, mostram trajetórias de degradação que o simples retorno das chuvas não reverte.
O que o incêndio de 2020 revelou com clareza é que o Pantanal não é invulnerável. Sua preservação relativa em comparação com outros biomas brasileiros não é resultado de proteção ativa — é resultado de condições geográficas e econômicas que historicamente dificultaram sua conversão. Essas condições estão mudando. A expansão da soja e da cana para as bordas da planície, a intensificação da pecuária, o aumento da frequência de secas associado à mudança climática e a desmobilização da fiscalização ambiental formam um conjunto de pressões que o bioma mais intacto do Brasil ainda precisa aprender a resistir.
O Pantanal sobreviveu ao fogo de 2020. Mas o que o fogo mostrou foi que sobreviver não é o mesmo que estar seguro.
Voz editorial BERAA onça-pintada ainda existe aqui em números que não existem em nenhum outro lugar do Brasil. O tuiuiú ainda nidifica às margens dos lagos da vazante. O jacaré ainda domina os rios em densidades que fazem o Pantanal parecer um documentário. Isso não é permanente — é frágil, contingente, dependente de decisões que serão tomadas nos próximos anos sobre como tratar a planície, o fogo, o gado e a água. O relógio que o fogo parou em 2020 voltou a andar. A questão é quanto tempo tem antes de parar de novo.