Em 1780, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro expediu mais um de uma longa série de alvarás proibindo os batuques nas ruas da cidade. A pena prevista era açoites para os escravizados e multa para os livres. O alvará não funcionou — como todos os anteriores não tinham funcionado. Enquanto a Câmara legislava, os batuques continuavam, cada vez mais inventivos. E a poucos quarteirões de distância, numa câmara de música ou numa sacristia, alguém copiava à pena uma missa policoral em estilo italiano.
O século XVIII colonial é o capítulo da música brasileira que a história oficial mais deformou. Os livros didáticos tendiam a saltar desta era para o choro do século XIX, como se não houvesse acontecido nada musicalmente relevante no intervalo. Aconteceu. Aconteceu em pelo menos quatro registros simultâneos — o batuque clandestino, o lundum dos salões, a modinha luso-brasileira e o surpreendente florescimento de uma música erudita própria, nas igrejas e vilas de Minas Gerais e da Bahia.
I. O que a lei proibia — e por quê
Para entender a música do Brasil colonial, é preciso primeiro entender a obsessão das autoridades em silenciá-la. Entre 1700 e 1800, câmaras municipais de Salvador, Rio de Janeiro e Recife expediram dezenas de proibições de batuques e "ajuntamentos de negros com instrumentos". A frequência dessas proibições é, em si, uma evidência histórica poderosa: se os batuques fossem facilmente controláveis, não seria preciso proibi-los repetidamente.
Documento histórico · Câmara do Rio de Janeiro, c. 1760
"...que nenhum negro, mulato ou pardo, livre ou escravo, possa fazer batuques, lunduns ou quaisquer ajuntamentos com instrumentos de percussão, sob pena de cinquenta açoites os escravos e de oito dias de prisão os forros e livres, além da perda dos ditos instrumentos..."
Fonte: Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Posturas municipais do século XVIII. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.
As proibições não eram apenas sobre o som. Eram sobre o que o som carregava. Quando trezentas pessoas se reuniam em torno de tambores numa noite de sábado, estavam se reconhecendo como comunidade, transmitindo informações, planejando fugas, elegendo lideranças e, em muitos casos, coordenando resistência coletiva. O batuque era infraestrutura social. E proibi-lo era uma tentativa de desmontar não apenas um hábito cultural, mas uma rede de comunicação que as autoridades coloniais nunca conseguiram penetrar completamente.
O paradoxo da casa-grande
Havia uma contradição fundamental no projeto de silenciamento colonial. As mesmas elites que assinavam as proibições dos batuques eram frequentemente as primeiras a apreciar, em privado, os ritmos e as danças que vinham dos africanos que escravizavam. O lundum operava nessa zona de contradição com eficácia desconcertante.
As mesmas elites que assinavam as proibições dos batuques dançavam o lundum nos saraus. A proibição era seletiva: para os pobres, nas ruas. Para os ricos, nos salões, chamava-se arte.
Dança de origem angolana — possivelmente derivada de práticas de umbigada dos povos Bantu — o lundum chegou ao Brasil pelas embarcações do tráfico e encontrou um caminho improvável: a ascensão social. Ao longo do século XVIII, foi progressivamente "domesticado" — adaptado ao português, levemente ajustado na harmonia para conviver com instrumentos europeus — e passou a ser aceito, primeiro timidamente, depois com entusiasmo, nos saraus das famílias coloniais mais abastadas.
Invisibilizadas · Compositoras anônimas de lunduns
As mulheres negras que criaram o primeiro hit brasileiro
Os lunduns que chegaram a Lisboa no final do século XVIII foram publicados com nomes de compositores homens — portugueses, quando havia nome algum. A pesquisadora Luana Vilutis documentou o que a lógica histórica já sugeria: grande parte das melodias e letras dos lunduns coloniais foram criadas por mulheres negras escravizadas ou libertas que trabalhavam como músicas nos saraus das casas coloniais. Eram elas o canal entre os dois mundos — e são elas os nomes que a história não guardou.
II. O barroco brasileiro — uma escola erudita no fim do mundo
Enquanto o batuque sobrevivia nas sombras e o lundum conquistava os salões, um terceiro processo musical acontecia nas igrejas, nas irmandades e nas câmaras de música das vilas mineiras e baianas: o florescimento de uma escola de composição erudita que merece figurar ao lado das grandes tradições barrocas europeias — e que a musicologia internacional levou séculos para reconhecer como tal.
O ouro de Minas Gerais, extraído em quantidades imensas a partir de 1700, financiou igrejas de uma arquitetura e uma decoração que não teriam vergonha em Nápoles ou em Lisboa. E dentro dessas igrejas, tocavam e compunham músicos de uma geração que havia aprendido teoria musical com os jesuítas, tinha acesso a partituras europeias e, ao mesmo tempo, ouvia nos arredores o batuque e o lundum que a sociedade colonial classificava como indignos de registro.
Música erudita · Barroco Mineiro
A escola que o mundo não conhecia
O "Barroco Mineiro" não é um rótulo retroativo imposto por musicólogos — era uma realidade sonora vívida. As irmandades religiosas de Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei e Diamantina sustentavam músicos profissionais pagos, contratavam compositores para celebrações litúrgicas e acumulavam acervos de partituras que resistiram, em parte, ao tempo. O estilo resultante tem contato com o barroco italiano e português, mas apresenta soluções harmônicas e timbrísticas que os musicólogos ainda hoje debatem — algumas explicáveis apenas pelo contato com a música popular que circulava fora dos muros das igrejas.
Lobo de Mesquita — o compositor que o Brasil esqueceu
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita nasceu por volta de 1746 em Vila do Príncipe (atual Serro, MG), filho de pai português e mãe negra ou parda. Tornou-se organista, regente e compositor de uma obra que inclui missas, motetos, novenas e composições instrumentais de complexidade harmônica que surpreende quem as ouve pela primeira vez sem saber sua origem.
Lobo de Mesquita viveu e trabalhou num Brasil que não tinha como imaginar que um homem negro, filho de escravizada, poderia compor música que resistiria três séculos. Morreu em 1805, no Rio de Janeiro, em condições de pobreza. Suas partituras sobreviveram por acaso — preservadas em arquivos de irmandades que não sabiam exatamente o que tinham nas mãos. A gravação sistemática de sua obra só começou na segunda metade do século XX.
Invisibilizado · Compositor erudito
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (c. 1746–1805)
Lobo de Mesquita é hoje considerado por musicólogos como um dos maiores compositores do período colonial americano — não apenas brasileiro. Sua "Ladainha em Mi bemol" e seu "Responsório de Quarta-Feira de Trevas" são obras de uma maturidade harmônica que não encontram paralelo na América Latina do século XVIII. No entanto, até os anos 1970, era praticamente desconhecido fora de círculos especializados. O trabalho de recuperação de sua obra foi liderado pela musicóloga Régis Duprat e pelo maestro Lutero Rodrigues. Hoje suas composições são gravadas por ensembles europeus e americanos — reconhecimento que chegou tarde demais para sua própria época.
Francisco Gomes da Rocha e a geração de Mariana
Lobo de Mesquita não estava sozinho. A vila de Mariana — sede do primeiro bispado do Brasil, fundado em 1745 — produziu uma geração de compositores que incluía Francisco Gomes da Rocha, Marcos Coelho Netto (pai e filho) e José Joaquim de Maya. Todos negros ou mestiços. Todos compositores de música erudita de alto nível. Todos praticamente ignorados pela historiografia musical brasileira durante mais de um século.
A razão desse apagamento é direta: a história da música erudita no Brasil foi escrita, por muito tempo, como a história da influência europeia sobre o Brasil — e não como a história do que músicos brasileiros fizeram com essa influência. Quando o parâmetro é "o que a Europa ensinou ao Brasil", compositores como Lobo de Mesquita ficam no rodapé. Quando o parâmetro é "o que o Brasil produziu com o que aprendeu", eles ficam no centro.
III. Domingos Caldas Barbosa — o padre que levou o Brasil a Lisboa
A história de Domingos Caldas Barbosa é uma das mais extraordinárias da música brasileira. Nascido no Rio de Janeiro por volta de 1740, filho de fidalgo português com mulher africana, cresceu num dos interstícios mais brutais da sociedade colonial: livre por direito, estigmatizado por nascimento, talentoso demais para ser ignorado.
Após conflitos com autoridades coloniais, foi deportado para Portugal por volta de 1770. Em Lisboa, tomou ordens sacras, tornou-se padre e começou a frequentar os saraus literários da nobreza portuguesa com sua viola e seu repertório de lunduns e modinhas. O sucesso foi imediato e desconcertante. A nobreza portuguesa, entediada com a seriedade da música de câmara italiana, apaixonou-se pela leveza melancólica dos versos de Caldas Barbosa. Ele fundou a Nova Arcádia, academia literária de prestígio, sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino.
Um padre negro, filho de africana, fundou uma academia literária em Lisboa e ensinou às cortes europeias como soava o Brasil — antes de o Brasil saber que tinha um som. Cf. Tinhorão, José Ramos. "Domingos Caldas Barbosa: o padre que veio da África". São Paulo: Editora 34, 2004.
A modinha — de volta ao Brasil com sotaque europeu
Do contato entre o lundum de Caldas Barbosa e a canção de câmara portuguesa nasceu, ou pelo menos se consolidou, a modinha. Gênero disputado — Portugal e Brasil reivindicam sua paternidade —, a modinha é na prática o primeiro produto musical genuinamente luso-brasileiro: melodia cantabile de influência italiana, harmonia europeia, mas com um swing rítmico e uma temática amorosa que vinham diretamente da sensibilidade que a diáspora havia instilado na música colonial.
O viajante inglês John Mawe, que visitou o Brasil em 1807–1809, deixou um dos registros mais vívidos da modinha em circulação: festas onde mulheres tocavam guitarra e cantavam modinhas enquanto os homens dançavam. Era a face "aceitável" de um processo musical muito mais amplo — e a modinha viajaria para o século XIX como a avó direta da canção brasileira urbana.
IV. Os quilombos como conservatórios
A história musical dos quilombos brasileiros é um dos territórios mais inexplorados da musicologia nacional. Por razões óbvias — comunidades que sobreviviam pela invisibilidade não deixavam documentação escrita —, o que sabemos vem quase inteiramente de fontes hostis: relatórios de expedições militares, depoimentos de capitães-do-mato, registros de julgamentos.
O Quilombo dos Palmares, que existiu por quase cem anos em Alagoas (c. 1605–1694) e chegou a ter entre vinte mil e trinta mil habitantes, era maior que a maioria das cidades coloniais brasileiras de sua época. Nos poucos registros que mencionam sua vida cultural, há referências a festas, danças e músicas — mas os detalhes foram considerados irrelevantes pelos documentadores militares que os registraram.
O que a etnomusicologia comparada e os estudos de comunidades quilombolas remanescentes permitem inferir é que os quilombos funcionavam como conservatórios involuntários: lugares onde práticas musicais africanas, que na senzala precisavam ser escondidas ou disfarçadas, podiam ser praticadas sem restrição. Eram, nesse sentido, os primeiros espaços livres da história musical brasileira.
O que se praticava nesses espaços não era um arquivo congelado de tradições africanas transportadas intactas. Era música viva, em transformação — forçosamente, porque os quilombos reuniam pessoas de nações diferentes, com línguas diferentes e sistemas musicais diferentes. Um tambor Bantu precisava conversar com um ritmo Iorubá; um canto Ewe precisava fazer sentido para alguém criado em Angola. O que emergiu foi um processo de criação coletiva sob pressão — não muito diferente, estruturalmente, do que aconteceria trezentos anos depois nos morros do Rio quando o samba nascia da mesma necessidade de comunicação entre comunidades diversas sem língua comum.
Havia também uma dimensão pedagógica que os documentos coloniais nunca registraram porque não sabiam o que estavam vendo: a transmissão deliberada de conhecimento musical entre gerações. Crianças nascidas no quilombo — que nunca haviam estado na África — aprendiam ritmos, cantos e técnicas instrumentais de adultos que precisavam preservar esse saber como se preserva qualquer tecnologia essencial à sobrevivência de um grupo. O mestre de percussão de Palmares era, funcionalmente, tão importante para a coesão comunitária quanto o guerreiro ou o curandeiro. A música que ele transmitia era infraestrutura — o mesmo batuque que a Câmara Municipal proibia nas ruas do Rio não era entretenimento: era o sistema nervoso de uma nação que o Brasil oficial tentava, sem sucesso, exterminar.
Invisibilizados · Músicos de Palmares
Os sem nome de Palmares — e o que preservaram
Não temos um único nome de músico do Quilombo dos Palmares. Os documentos coloniais registram os nomes dos líderes militares — Ganga Zumba, Zumbi — mas os artistas, os mestres de percussão, os cantadores, os guardiões do repertório musical são completamente anônimos. Sabemos que existiram porque os relatórios militares mencionam, com impaciência, o "barulho dos tambores" como sinal da presença do quilombo. Esses tambores eram instrumentos de comunicação e de resistência. Quem os tocava sustentou uma nação por quase cem anos — e a história não guardou sequer um nome.
V. Quatro mundos, uma herança
Quando o século XVIII termina e o XIX começa — com a família real portuguesa desembarcando no Rio em 1808 e mudando completamente o eixo cultural da colônia —, a música brasileira já é uma realidade distinta da música de qualquer um dos mundos que a formaram. Não é africana, não é europeia, não é indígena. É uma quarta coisa, ainda sem nome fixo, mas já inconfundivelmente ela mesma.
O lundum já cruzou o Atlântico e voltou transformado. A modinha já tem vida própria independente de Portugal. O batuque já gerou variantes regionais tão distintas que o maracatu do Recife e o jongo do Rio mal se reconheceriam como parentes. E nas igrejas de Minas, músicos negros como Lobo de Mesquita escrevem missas que estariam em casa em Nápoles. Quatro mundos sonoros. Uma única história que ainda está aprendendo a se contar inteira.
Linha do tempo — Século XVIII
Primeiros registros escritos de batuques no Rio de Janeiro
Câmara Municipal expede o primeiro alvará documentado proibindo "ajuntamentos de negros com tambores".
Florescimento da música erudita em Minas Gerais
O ouro financia igrejas barrocas e irmandades religiosas que sustentam músicos profissionais. Começa a geração de Lobo de Mesquita.
Nasce Francisca da Silva de Oliveira (Chica da Silva)
Nasceu no Arraial de Milho Verde, Vila do Príncipe (atual Serro), MG. Viveu no Arraial do Tejuco (atual Diamantina). Futura organizadora das maiores festas musicais da capitania e importante agente cultural da época.
Nasce Lobo de Mesquita, Vila do Príncipe (atual Serro, MG)
Compositor, organista e regente. Um dos maiores compositores do período colonial americano — reconhecido somente dois séculos depois.
Nasce Domingos Caldas Barbosa, Rio de Janeiro
Filho de português com africana. Levará o lundum e a modinha para Lisboa, onde fará carreira como padre e trovador.
Caldas Barbosa chega a Lisboa
Deportado do Brasil, torna-se figura central dos saraus da nobreza portuguesa com seus lunduns e modinhas.
Caldas Barbosa funda a Nova Arcádia em Lisboa
Academia literária de prestígio. Um homem negro, filho de africana, como figura central da cultura europeia do século XVIII.
Lundum é tocado publicamente em Lisboa
Primeira exportação cultural documentada do Brasil para a Europa. O Brasil existe musicalmente antes de existir politicamente.
Lobo de Mesquita compõe suas principais obras
Missas, ladainhas e novenas que só serão gravadas e reconhecidas internacionalmente no século XX.
Morte de Domingos Caldas Barbosa em Lisboa
Deixa como legado dois volumes do Viola de Lereno — primeira coletânea publicada de canções de origem brasileira.
Playlist · Capítulo 02
O caldeirão colonial — ouça enquanto lê
Lunduns, modinhas coloniais, barroco mineiro e registros de tradições afrobrasileiras do século XVIII. Da senzala ao salão, do salão à catedral de Mariana.
O que o século XVIII passou adiante
Como os quatro mundos sonoros do período colonial fluem para a música do século XIX e além.