Em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea e libertou, com uma penada, cerca de 500 mil pessoas escravizadas no Brasil. O que a lei não fez — e ninguém esperava que fizesse — foi garantir terra, emprego, moradia ou qualquer forma de amparo às pessoas recém-libertadas. O que resultou foi uma diáspora interna: ex-escravizados e seus filhos concentrando-se nas periferias das cidades, sobretudo no Rio de Janeiro, carregando consigo suas tradições, suas religiões e sua música.
É nesse contexto — e não nos salões da Belle Époque carioca — que nasce o samba. Não em uma noite iluminada de inspiração, não na cabeça de um único compositor genial, mas num processo coletivo, anônimo e decididamente periférico que durou décadas. A história oficial do samba, construída a partir dos anos 1930, simplificou esse processo brutalmente: escolheu nomes, datas e lugares que tornassem o gênero apresentável à narrativa de identidade nacional que o governo Vargas precisava. O que ficou de fora dessa escolha é o tema deste capítulo.
I. A república que não mudou nada — e mudou tudo
A Proclamação da República, em 1889, foi um evento essencialmente militar e oligárquico que não alterou de imediato a estrutura social do Brasil. O que alterou, nos anos seguintes, foi a geografia humana das cidades: com a abolição e a proclamação, o Rio de Janeiro tornou-se destino de três fluxos migratórios simultâneos e intensos — ex-escravizados do interior fluminense e do Vale do Paraíba, imigrantes europeus (especialmente italianos e portugueses) e nordestinos fugindo das secas recorrentes do semiárido.
Esses três grupos chegaram ao Rio sem recursos e ocuparam os mesmos espaços: as estalagens e cortiços do centro velho — que o urbanismo higienista do prefeito Pereira Passos destruiria violentamente em 1904 —, e os morros e subúrbios que se tornaram o Rio periférico que a história oficial preferia não mapear. Nesses espaços, culturas musicais completamente diferentes começaram a se encontrar com uma intimidade que nenhuma outra circunstância teria produzido.
A Tia Ciata e a casa que gerou um gênero
No coração dessa mistura estava uma mulher chamada Hilária Batista de Alameira, conhecida como Tia Ciata. Baiana de origem, Ialorixá do Candomblé, quituteira de mão cheia e esposa de um funcionário da prefeitura do Rio de Janeiro — uma combinação de identidades que lhe dava, de maneira única, acesso simultâneo a múltiplos mundos sociais da cidade.
Sua casa na Praça Onze era o centro gravitacional da música popular carioca no começo do século XX. Na sala de frente, para os visitantes mais formais, havia músicas de partido-alto. Nos fundos, onde a polícia não chegava com tanta frequência, os batuques de Candomblé. E na zona intermediária — nos corredores, no quintal, na cozinha — acontecia a mistura que viria a ser chamada de samba: choro sincopado, lundum acelerado, batuque estruturado em forma de canção.
Invisibilizada · Tia Ciata e as "tias baianas"
Hilária Batista de Alameira (c. 1854–1924) e as mulheres que fundaram o samba
A história do samba que chegou aos livros é majoritariamente uma história de homens: Donga, Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô. As mulheres que tornaram esses encontros possíveis — que cederam suas casas, cozinharam para os músicos, organizaram as festas, mantiveram os rituais do Candomblé que eram o fundamento espiritual de toda aquela comunidade — ficaram em segundo plano. Tia Ciata é a mais famosa dessas mulheres, mas havia dezenas de outras: Tia Bebiana, Tia Perciliana, Tia Sadata. Eram ialorixás, quituteiras, parteiras e musicistas. Eram o tecido conectivo da comunidade baiana do Rio de Janeiro. E eram, no sentido mais literal, as produtoras culturais do samba nascente — sem estúdio, sem contrato, sem crédito na história.
II. Pelo Telefone — o disco, a disputa e o roubo
Em 1917, Ernesto dos Santos — o Donga — registrou no arquivo da Biblioteca Nacional uma composição chamada Pelo Telefone com seu nome e o de Mauro de Almeida como coautores. No mesmo ano, a gravação foi lançada pela Casa Edison e tornou-se um sucesso imediato — o primeiro disco de samba da história, pelo menos na versão que ficou registrada.
O problema é que praticamente ninguém que frequentava a casa de Tia Ciata reconhecia Pelo Telefone como composição exclusiva de Donga. A música era, segundo múltiplos depoimentos da época, uma criação coletiva que havia surgido nas rodas da Praça Onze — um processo de construção comunitária em que várias pessoas haviam contribuído com versos, variações melódicas e estrutura harmônica ao longo de meses ou anos.
Primeiro disco de samba · 1917
Pelo Telefone
Donga e Mauro de Almeida · Casa Edison, Rio de Janeiro
Considerado o primeiro samba gravado, o disco foi um sucesso comercial imediato. Mas Pixinguinha, João da Baiana e outros frequentadores da casa de Tia Ciata contestaram a autoria por décadas. O registro no nome de Donga foi o primeiro episódio documentado de apropriação de criação coletiva na história da música popular brasileira — e não seria o último.
Pixinguinha — Alfredo da Rocha Vianna Filho — foi um dos que protestaram mais vivamente. Em entrevistas décadas depois, afirmou categoricamente que Pelo Telefone era "música de todo mundo" e que Donga havia simplesmente sido o mais rápido em chegar ao cartório. A questão permanece irresolvida historicamente, mas o padrão que estabeleceu é claro: desde o primeiro momento, a história fonográfica do samba foi uma história de quem tinha acesso aos mecanismos de registro — e os músicos negros e pobres da Praça Onze, com raras exceções, não tinham.
O primeiro disco de samba foi gravado por quem tinha acesso ao cartório, não necessariamente por quem havia composto a música. É uma história que o Brasil repetiu muitas vezes depois.
III. Pixinguinha — o maior e o mais apagado
Se houvesse justiça histórica na música brasileira, Alfredo da Rocha Vianna Filho seria hoje um nome tão universalmente reconhecido quanto Mozart ou Gershwin. Nascido no Rio de Janeiro em 1897, filho de músico, começou a tocar flauta antes dos dez anos e por volta dos vinte já era reconhecido pelos próprios pares como o músico mais completo de sua geração: flautista extraordinário, saxofonista, compositor de choros de complexidade harmônica que deixavam os eruditos sem palavras, e arranjador de instinto infalível.
O que a história fez com Pixinguinha é um dos crimes silenciosos mais eloquentes da cultura brasileira. Ele integrou Os Oito Batutas que se apresentaram em Paris em 1922 com boa repercussão da imprensa francesa. Na volta ao Brasil, a imprensa carioca o atacou com uma virulência que só se explica inteiramente pelo racismo: acusaram-no de "africanizar" a música brasileira, de introduzir elementos "selvagens" em vez de retornar com influências "civilizadas" da Europa.
Imprensa da época · Rio de Janeiro, 1922–1923
Após o retorno de Os Oito Batutas de Paris, o jornal carioca A Rua publicou artigo afirmando que Pixinguinha havia "desonrado" a música brasileira ao misturá-la com "elementos africanos primitivos". O articulista não percebia — ou fingia não perceber — que esses "elementos africanos" eram exatamente o que havia encantado o público parisiense e o que tornava a música de Pixinguinha insubstituível.
A campanha de difamação não destruiu Pixinguinha — ele era grande demais para isso. Mas moldou sua recepção pública por décadas. Enquanto Ernesto Nazareth era celebrado nos salões da classe média carioca, Pixinguinha ficou associado às rodas de choro dos subúrbios, aos terreiros, aos botequins — os espaços que a cultura oficial tolerava sem celebrar. Só na segunda metade do século XX, com o movimento de valorização do choro liderado por músicos como Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola, Pixinguinha começou a receber o reconhecimento que cabia à sua dimensão.
Invisibilizado · Pixinguinha e os arranjos não creditados
Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897–1973) — o arranjador sem nome
Além de ser sistematicamente atacado como compositor e performer, Pixinguinha trabalhou por décadas como arranjador anônimo para gravadoras e para outros artistas — frequentemente sem crédito e por salários que não correspondiam à qualidade e quantidade do trabalho. Estima-se que centenas de arranjos gravados nas décadas de 1930, 1940 e 1950 que circulam sem assinatura sejam de sua autoria. A musicóloga Sônia Chada e o pesquisador Luiz Costa-Lima Neto documentaram parte desse trabalho oculto, mas a catalogação está longe de completa. O paradoxo de Pixinguinha é precisamente esse: foi o músico mais influente de sua geração e um dos trabalhadores mais mal-remunerados e menos creditados da história da música brasileira.
IV. A Semana de 22 e a música que não foi convidada
Em fevereiro de 1922, enquanto Pixinguinha se preparava para embarcar para Paris com Os Oito Batutas, a Semana de Arte Moderna acontecia no Teatro Municipal de São Paulo com poesia, prosa, pintura e arquitetura — mas praticamente sem música popular. Heitor Villa-Lobos estava lá, com suas composições que bebiam no choro e nas tradições folclóricas brasileiras. Mas o choro em si, o samba nascente, o maxixe das periferias cariocas — esses estavam do lado de fora.
A Semana de 22 deslocou o debate sobre a identidade cultural brasileira para uma chave intelectual e burguesa que excluía sistematicamente os produtores populares dessa identidade. Os modernistas perguntavam: o que é brasileiro? E respondiam com referências ao folclore, ao primitivismo estilizado, ao indianismo romântico renovado — mas raramente com referência direta à música que as pessoas negras e pobres estavam criando nas periferias das grandes cidades naquele exato momento.
Os modernistas perguntavam o que era brasileiro enquanto o samba estava sendo inventado a alguns quilômetros de distância, em casas que eles nunca visitariam. A resposta estava na rua. A pergunta foi feita no Teatro Municipal.
O rádio entra em cena
Em 1922, também, o Brasil inaugurou suas primeiras transmissões de rádio — ironicamente, no mesmo ano da Semana de Arte Moderna. Nas décadas seguintes, o rádio transformaria completamente a música brasileira: criaria estrelas nacionais, homogeneizaria repertórios, tornaria possível que uma canção gravada no Rio de Janeiro chegasse simultaneamente a Manaus e a Porto Alegre.
Mas o rádio também escolheria: qual samba era "limpo" o suficiente para o éter. Quais letras passavam pelo crivo moral dos diretores de programação. Quais vozes soavam "bem" nos aparelhos da classe média. Esse processo de seleção — que os historiadores chamam eufemisticamente de "branqueamento do samba" — está na raiz de uma das tensões mais persistentes da música popular brasileira: entre o samba que a periferia criou e o samba que a indústria decidiu vender.
Invisibilizadas · Cantoras pioneiras do rádio
As vozes negras que o rádio preferiu esconder
As primeiras transmissões de rádio no Brasil privilegiaram vozes brancas e estilos associados à música europeia. Cantoras negras de extraordinário talento — como Zaíra de Oliveira, uma das primeiras a gravar samba nos anos 1920, e Aracy Cortes, que transitava entre o samba e o maxixe com uma naturalidade que o rádio comercial não sabia classificar — foram marginalizadas ou vistas apenas como "tipos" folclóricos, não como artistas de carreira sustentável. A narrativa do rádio como democratizador da música brasileira é verdadeira apenas parcialmente: democratizou o acesso às músicas que os donos das emissoras decidiram que mereciam ser ouvidas.
V. 1930 — o samba vira política de Estado
Quando Getúlio Vargas assumiu o poder em outubro de 1930, encerrando a Primeira República, o samba já era um fenômeno urbano de massa no Rio de Janeiro. O que Vargas fez — com uma habilidade política que seus assessores culturais aperfeiçoariam ao longo da década — foi transformar o samba em instrumento de construção da identidade nacional.
O processo não foi simples nem sem negociação. O Estado varguista queria um samba que celebrasse o trabalho, o amor pela pátria e os valores morais convencionais. Os sambistas da Estácio e do Salgueiro queriam cantar malandragem, boemia e a experiência da vida periférica. O acordo tácito que resultou desse encontro de interesses moldou o samba por décadas: em troca de visibilidade, legitimidade e recursos (as escolas de samba passaram a receber apoio municipal), os sambistas aceitaram certas restrições temáticas e uma certa narrativa de brasilidade.
Noel Rosa foi o cronista mais lúcido dessa transição. Branco, de Vila Isabel, filho da classe média, Noel conseguiu transitar entre os mundos com uma leveza que confundia os guardiões das fronteiras sociais. Suas letras — inteligentes, irônicas, às vezes melancolicamente conscientes da própria contradição — são o documento mais preciso do que o samba era naquele momento de charneira: antes de se tornar patrimônio, quando ainda era luta.
Linha do tempo — A Primeira República
Abolição da escravatura — Lei Áurea
Cerca de 500 mil libertados sem qualquer estrutura de apoio. A diáspora interna começa. A música vai junto.
Proclamação da República
A elite muda de regime mas não de valores. Para os músicos negros e pobres, pouca coisa muda imediatamente.
Nasce Pixinguinha no Rio de Janeiro
Alfredo da Rocha Vianna Filho. O músico mais importante de sua geração começa sua vida numa cidade que ainda não sabe o que vai criar.
A casa de Tia Ciata torna-se o epicentro do samba nascente
Praça Onze, Rio de Janeiro. Candomblé, partido-alto, choro sincopado e improvisação coletiva num mesmo quintal.
"Pelo Telefone" — o primeiro samba gravado
Donga registra a autoria. Os outros frequentadores da Praça Onze protestam por décadas. A história fonográfica começa com uma disputa.
Semana de Arte Moderna em São Paulo / Os Oito Batutas em Paris
Enquanto a elite intelectual debatia identidade nacional em São Paulo, Pixinguinha provava em Paris o que o Brasil tinha de mais original.
Primeiras transmissões de rádio no Brasil
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Roquette-Pinto. O veículo que transformará a música brasileira em fenômeno nacional nasce.
Surge a primeira escola de samba — Deixa Falar
Estácio de Sá, Rio de Janeiro. Ismael Silva, Bide e outros sambistas institucionalizam o gênero. A escola de samba como forma cultural nasce.
Getúlio Vargas assume o poder — Era Vargas começa
O samba deixa de ser música de periferia tolerada e torna-se instrumento de construção da identidade nacional. Com preço.
Playlist · Capítulo 04
A primeira república — ouça enquanto lê
Os primeiros sambas gravados, choros de Pixinguinha, o maxixe em transição e as vozes que o rádio tentou silenciar. Da Praça Onze ao Estácio, passando pela Casa Edison.
Da república ao rádio — o que este capítulo passa adiante
Como o samba nascente, o rádio e a identidade em disputa desembocam na Era Vargas.