Em 1997, Chico Science morreu num acidente na BR-232,
em Pernambuco, a caminho do Recife. Tinha trinta anos. Havia lançado dois discos com
a Nação Zumbi — Da Lama ao Caos (1994) e
Afrociberdelia (1996) — que criavam uma linguagem inteiramente nova: maracatu
de baque virado encontrando distorção de guitarra, coco nordestino encontrando
programação de bateria eletrônica, berimbau e baixo elétrico falando a mesma língua
sem que nenhum dos dois precisasse abrir mão de nada. A morte de Chico Science
cortou uma trajetória antes que ela se completasse. O que ficou é suficiente para
entender que o século XXI da música brasileira havia começado ali, na lama do mangue,
alguns anos antes de o século realmente começar.
A música brasileira do século XXI é a história de quatro movimentos que o país
demorou a reconhecer pelo que eram. O funk deixou os bailes da periferia carioca
e se tornou o gênero de exportação mais bem-sucedido desde a bossa nova — sem
que nenhuma gravadora tradicional tivesse planejado isso. O forró universitário
criou um mercado de entretenimento jovem que transformou cidades do Nordeste em
polos de produção cultural nacional. O sertanejo se industrializou de uma maneira
que a crítica musical nunca soube como avaliar e o público nunca parou de consumir.
E a música indígena contemporânea chegou às plataformas de streaming como uma
afirmação de existência que não precisava de validação de ninguém.
Quatro movimentos, quatro geografias, quatro lógicas de produção completamente
distintas. E uma pergunta que atravessa todos eles: quando a música se torna
grande o suficiente para ser negócio, quem fica com o crédito e quem fica
com o dinheiro?
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I. Manguebit — a lama que digitalizou
O manifesto do manguebit foi escrito por Chico Science
e Fred Zero Quatro em 1992 e distribuído em papel,
mimeografado, para jornalistas e músicos no Recife. Era um texto estranho: misturava
referências a satélites de comunicação com imagens de caranguejos no mangue, citava
Marshall McLuhan ao lado de cosmologias indígenas
do Nordeste, prometia ligar o Recife — uma cidade que o próprio texto descrevia como
atolada na lama do subdesenvolvimento — à rede global de informação que ainda não
tinha nome de internet na linguagem popular. Era um projeto estético e político ao
mesmo tempo, o que no Brasil raramente produz resultados sem conflito.
A particularidade do manguebit estava na recusa de hierarquia entre as referências.
O maracatu de baque virado — um gênero que vinha dos terreiros afro-brasileiros de
Pernambuco, praticado por comunidades de periferia com pouco acesso à infraestrutura
da indústria fonográfica — tinha o mesmo peso estético que o rock pós-punk de
Joy Division ou o hip-hop de
Public Enemy. Não havia fusão no sentido de diluição:
havia coexistência tensa, fricção deliberada entre elementos que a lógica de mercado
normalmente mantinha separados.
O manguebit não era tropicalismo dos anos 1990. Era outra coisa. O tropicalismo
deglutia o estrangeiro para transformá-lo em coisa brasileira. O manguebit ligava
o local ao global sem pedir permissão e sem precisar transformar nada em outra coisa.
O maracatu não precisava virar rock para ser contemporâneo. Já era.
Chico Science e o corpo que dançava na fronteira
Francisco de Assis França, Chico Science, vinha
de Olinda e havia crescido ouvindo as duas coisas simultaneamente: o maracatu dos
terreiros de sua família e o rock que chegava via rádio FM e fitas cassete copiadas.
A síntese que construiu não era intelectual — era corporal. Era sobre como esses
ritmos podiam coexistir no mesmo corpo que dança, e só depois sobre como podiam
coexistir no mesmo disco.
Da Lama ao Caos (1994) saiu pela Sony, o que foi ao mesmo tempo uma
conquista e uma ironia: a maior gravadora multinacional do mundo distribuindo um
disco de maracatu com distorção gravado numa cidade que o mercado fonográfico
nacional sempre havia tratado como periferia. A Sony não sabia muito bem o que
tinha nas mãos — o disco vendeu razoavelmente bem no Brasil e extraordinariamente
bem na Europa, onde havia uma audiência para fusões pós-coloniais que o mercado
brasileiro ainda não havia aprendido a nomear.
Invisibilizados · Os mestres que tornaram tudo possível
Mestres Salustiano, Shacon e a tradição do maracatu que o manguebit transformou em referência
Quando o manguebit ganhou visibilidade internacional nos anos 1990, a narrativa
focou nos músicos jovens de Recife que haviam criado a síntese — Chico Science,
Fred Zero Quatro, os integrantes da Nação Zumbi. O que essa narrativa raramente
mencionava eram os mestres das nações de maracatu que haviam preservado e
desenvolvido o gênero por décadas, em condições de extrema precariedade,
sem o reconhecimento da indústria cultural e muitas vezes sem o reconhecimento
do próprio estado pernambucano.
Mestre Salustiano, violeiro e folião do frevo e do cavalo-marinho,
era uma das referências do círculo de músicos que formou o manguebit.
As Nações de Maracatu — Leão Coroado, Porto Rico, Estrela Brilhante —
continuavam sua tradição nos terreiros enquanto o gênero se tornava referência
global. A economia simbólica do manguebit foi generosa para os jovens criadores
e avara para os depositários da tradição que tornou a criação possível. É um
padrão que a música popular brasileira repete em todas as épocas: a vanguarda
se alimenta da tradição, a tradição raramente recebe o crédito de ter alimentado.
Nos anos 2000 e 2010, houve um movimento de reparação parcial, com projetos
de documentação e com músicos da Nação Zumbi voltando explicitamente a citar
e a colaborar com as nações de maracatu. Parcial, porque o mercado fonográfico
distribui royalties de acordo com créditos de composição — e os padrões rítmicos
do maracatu são de domínio coletivo, não de autoria individual, o que os torna
invisíveis para os mecanismos legais de remuneração.
Nação Zumbi — o que fica quando o fundador parte
Depois da morte de Chico Science, a Nação Zumbi
poderia ter encerrado. Era o que a lógica da indústria fonográfica sugeria: uma banda
criada em torno de uma personalidade central, sem ela, tende a se dissolver.
A Nação Zumbi fez o oposto — continuou, lançou discos, fez shows, e o fez de uma
maneira que não tentava imitar a presença de Chico Science nem apagar o que ele havia
sido. Jorge Du Peixe assumiu os vocais e o grupo
desenvolveu uma estética própria que mantinha a tensão entre o eletrônico e o
percussivo que havia sido a marca do manguebit.
A trajetória pós-Science da Nação Zumbi é um caso raro na música brasileira: a
sobrevivência criativa de um projeto coletivo que havia perdido seu membro mais
visível. Diz algo sobre a qualidade da proposta estética original que ela fosse
robusta o suficiente para existir sem a pessoa que a havia formulado primeiro.
Análise · Composição e síntese
"A Cidade" — maracatu como profecia urbana
"A Cidade" (1994), do disco Da Lama ao Caos, é talvez a canção que melhor sintetiza o projeto manguebit em suas dimensões estética e política. A letra mapeia o Recife através de seus bairros e contradições — Casa Amarela, Beberibe, Capibaribe, os mangues — como se a cidade fosse um organismo que respira e que pode tanto engolir quanto ser engolido. A bateria eletrônica e o baque de maracatu não se alternam: soam simultaneamente, criando uma textura rítmica que o ouvinte formado em qualquer das duas tradições reconhece como familiar e como estranha ao mesmo tempo.
A canção foi regravada, sampleada e citada por dezenas de artistas posteriores, de DJs de baile funk do Rio a artistas de MPB experimental de São Paulo. Seu percurso diz algo sobre o que o manguebit produziu de mais duradouro: não um gênero delimitado, mas uma lógica de abertura que permite que qualquer ritmo brasileiro dialogue com qualquer linguagem contemporânea sem precisar pedir desculpas por nenhum dos dois lados.
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III. Forró universitário — quando o Nordeste foi à cidade e a cidade foi ao Nordeste
Existe uma confusão produtiva no termo forró universitário: sugere que o gênero
foi criado na universidade, quando na verdade foi criado pelos universitários que
saíram de suas cidades do interior do Nordeste para estudar em Fortaleza, Recife,
João Pessoa, Natal — e levaram consigo uma nostalgia do forró de casa que os
levou a criar uma versão nova do gênero, mais elétrica, mais rápida, com letras
mais próximas do cotidiano da festa universitária.
O forró original — o de Luiz Gonzaga, o baião,
o xote, o xaxado — era uma música do interior para o interior, ou do interior
para os migrantes que haviam levado consigo para São Paulo e Rio de Janeiro
a memória de onde vieram. A chegada do forró às universidades nos anos 1990 criou
uma nova audiência: jovens de classe média nordestina que não tinham a memória
do interior e que queriam uma versão do forró que pertencesse a eles.
Mastruz com Leite,
Calcinha Preta e
Aviões do Forró foram as bandas que definiram
essa estética — sanfona elétrica, triângulo e zabumba, mas com a velocidade de
um show de rock e as letras de uma festa de faculdade.
Invisibilizado · A tradição que o universitário apagou
Dominguinhos e a geração do forró de raiz que perdeu o mercado sem perder a arte
Dominguinhos — José Domingos de Morais — foi um dos maiores
sanfoneiros da história da música brasileira, discípulo direto de Luiz Gonzaga,
compositor de mais de trezentas músicas, parceiro de Gilberto Gil e de Chico Buarque.
Quando o forró universitário explodiu nos anos 1990, Dominguinhos já era um artista
consagrado nos círculos da MPB — mas não no novo mercado que havia se aberto.
A indústria do forró universitário não precisava de sanfoneiros de raiz: precisava
de bandas com dezenas de músicos, sistema de som de cinquenta mil watts e capacidade
de fazer três shows por fim de semana em cidades diferentes.
A geração de Luiz Gonzaga Júnior — filho de Gonzagão —,
de Trio Nordestino, de Flávio José ficou
numa posição estranha: reconhecida como referência cultural pelos universitários
que dançavam em festas mas sem acesso ao circuito de shows que havia se tornado
o coração econômico do novo forró. O crédito simbólico e o benefício financeiro
foram para lugares diferentes — como acontece com frequência quando um gênero
popular é ressignificado por uma classe com mais acesso ao mercado.
Wesley Safadão e a economia da alegria
Wesley Safadão — Wesley Oliveira da Silva —
começou como vocalista do Garota Safada, banda de forró de Fortaleza que,
ao longo dos anos 2000, transformou o forró universitário numa indústria de
entretenimento com lógica própria: turnês com quarenta pessoas na equipe,
ônibus de luxo, patrocínios, merchandise, contratos de exclusividade com
produtoras de eventos. Quando lançou carreira solo em 2013, o modelo estava
tão consolidado que sua primeira turnê solo já tinha estrutura de tour
internacional de artista pop.
O sucesso de Safadão levantou uma questão que o debate sobre música popular
brasileira raramente sabe como articular: quando a alegria se torna um produto,
o que acontece com a alegria? O forró universitário em sua versão mais industrial
é uma música de festa perfeita — rítmica, direta, funcional, sem ambiguidade
e sem profundidade intencional. É possível criticar essa escolha estética,
mas é difícil ignorar que ela responde a uma necessidade real de um público
real com direito a se divertir nos seus próprios termos.
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V. Música indígena contemporânea — existir é um ato político
Não existe uma música indígena contemporânea singular — existem centenas delas,
em línguas, estilos e contextos completamente distintos, produzidas por povos
com histórias, territórios e relações com o estado brasileiro radicalmente diferentes.
O que existe em comum é uma transformação que as plataformas de streaming tornaram
possível a partir dos anos 2010: a capacidade de uma aldeia lançar música para
o mundo sem passar por nenhum intermediário da indústria fonográfica tradicional.
Kaê Guajajara, do povo Guajajara do Maranhão,
mistura canto tradicional com música eletrônica e beats contemporâneos, cantando
em português e em sua língua materna. Djuena Tikuna,
do povo Tikuna do Amazonas, lança música instrumental baseada em cantos e
instrumentos tradicionais com produção que não tem nenhuma concessão ao que a
indústria fonográfica esperaria de uma artista indígena. O coletivo de rap
Brô MC's, da aldeia Dourados no Mato Grosso do Sul,
canta rap em português e em Guarani sobre demarcação de terras, racismo e
a resistência cotidiana do povo Guarani-Kaiowá.
A música indígena contemporânea não é uma curiosidade etnográfica digitalizada.
É uma afirmação de que os povos originários do Brasil existem no presente —
não como sobreviventes de um passado que a narrativa nacional preferia acreditar
que havia acabado, mas como produtores de cultura contemporânea com tanto
direito ao presente quanto qualquer artista de São Paulo ou Rio de Janeiro.
O que torna a música indígena contemporânea um fenômeno musical novo não é apenas
a presença nas plataformas digitais — é a forma como ela desafia categorias.
Não é MPB, não é world music no sentido que os selos europeus davam ao termo
nos anos 1980 e 1990 (quando significava principalmente música folclórica de países
do Sul Global adaptada para ouvidos ocidentais), não é música experimental, não é
música popular no sentido convencional. É uma forma de fazer música que existe
nos seus próprios termos e que, ao chegar ao streaming, obriga as plataformas
e o público a lidar com categorias que seus algoritmos não sabem muito bem
como classificar.
Invisibilizados · A tradição que antecede e excede o registro
Os detentores de conhecimento musical que não têm conta no Spotify
A visibilidade da música indígena contemporânea nas plataformas digitais é real
e importante — mas cria uma nova versão de um problema antigo. Os jovens artistas
indígenas que lançam músicas no Spotify e no YouTube são frequentemente os
intermediários entre uma tradição musical viva, mantida por anciãos e pajés que
raramente têm acesso ou interesse em plataformas digitais, e um público urbano
brasileiro e internacional que chega à música indígena por meio dessas plataformas.
O canto dos rituais, as músicas de cura, os cantos de passagem — esses repertórios
existem em contextos nos quais as categorias de autoria individual, de copyright
e de royalties são não apenas inaplicáveis como conceitualmente absurdas. Uma
música que pertence ao povo, que foi transmitida por gerações e que só tem sentido
em contexto ritual não pode ser registrada como composição individual no ECAD.
Quando ela aparece como referência ou sample numa produção contemporânea,
a tradição não recebe nenhuma forma de reconhecimento que o mercado fonográfico
seja capaz de formalizar.
Essa não é uma questão que a legislação de direitos autorais brasileira está
equipada para resolver. É uma questão que revela os limites de toda a estrutura
de reconhecimento e remuneração que a indústria fonográfica construiu ao longo
do século XX: ela foi desenhada para um mundo de autoria individual que a
maioria das músicas do mundo nunca habitou.
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VI. O que o século XXI ensinou sobre música brasileira
Há um fio que atravessa todos os movimentos musicais do Brasil no século XXI
e que se torna mais nítido quanto mais se olha para eles: o colapso dos
mediadores. O funk chegou ao mundo sem a intermediação das gravadoras tradicionais.
A música indígena chegou ao streaming sem passar por produtoras de world music.
O forró universitário criou seu próprio circuito de shows, sua própria rede
de distribuidores, suas próprias rádios — sem precisar de São Paulo como
centro distribuidor. O sertanejo construiu uma indústria paralela em Goiânia
que hoje é mais robusta que partes significativas da indústria musical paulistana.
A internet não causou esse colapso — acelerou uma tendência que já estava em
curso. O Brasil sempre teve uma indústria musical centralizada no Rio e em São Paulo
que funcionava como porteiro: determinava o que era ou não era música brasileira
legítima, o que merecia distribuição nacional, o que podia aparecer na imprensa
especializada. Quando esse porteiro perdeu o controle das chaves — com o pirataria
dos anos 1990, com a digitalização dos anos 2000, com o streaming dos anos 2010 —
o que estava do lado de fora entrou, e a música brasileira se tornou muito maior
e muito mais diversa do que a crítica especializada havia previsto que seria.
A questão que fica, e que este capítulo não resolve porque nenhum capítulo pode
resolver, é a da distribuição do benefício. A diversidade chegou; a equidade
não chegou com ela. O funk é ouvido em todo o mundo e os DJs fundadores do
gênero vivem em condições de invisibilidade econômica. A música indígena está
no Spotify e os detentores da tradição que ela transforma não têm mecanismos
de compensação. O sertanejo gera bilhões em faturamento e os compositores de
bastidores negociam individualmente, sem sindicato, sem proteção, sem crédito
público. O problema não mudou — apenas ficou mais visível porque a música ficou
maior.