BERA Brasil em Compasso Capítulo 10

Capítulo 10

O Século
XXI

O funk virou global antes de o Brasil perceber. O forró foi à universidade. O sertanejo se tornou indústria. E a música indígena chegou ao streaming sem pedir licença a ninguém

Período2000–presente
Tom narrativoLiterário-poético
Leitura~35 minutos

1997

Chico Science morre

O fundador do manguebit morreu num acidente de carro aos 30 anos, antes de ver sua síntese entre maracatu, rock e tecnologia mudar a música do mundo. O movimento que criou sobreviveu e se espalhou sem ele.

Brasil no streaming latino

O Brasil é consistentemente o maior mercado de streaming da América Latina e um dos cinco maiores do mundo. O funk brasileiro é o gênero nacional com maior circulação internacional desde o início dos anos 2010.

400+

Etnias com produção musical

O Brasil tem mais de 400 povos indígenas reconhecidos. A partir dos anos 2010, dezenas deles passaram a lançar música nas plataformas digitais em suas próprias línguas — sem intermediação das gravadoras tradicionais.

R$2bi

Faturamento do sertanejo

Estimativa do faturamento anual do mercado de música sertaneja no Brasil no início dos anos 2020, incluindo shows, direitos e merchandise. É o maior segmento da indústria musical brasileira por receita bruta.

Em 1997, Chico Science morreu num acidente na BR-232, em Pernambuco, a caminho do Recife. Tinha trinta anos. Havia lançado dois discos com a Nação ZumbiDa Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) — que criavam uma linguagem inteiramente nova: maracatu de baque virado encontrando distorção de guitarra, coco nordestino encontrando programação de bateria eletrônica, berimbau e baixo elétrico falando a mesma língua sem que nenhum dos dois precisasse abrir mão de nada. A morte de Chico Science cortou uma trajetória antes que ela se completasse. O que ficou é suficiente para entender que o século XXI da música brasileira havia começado ali, na lama do mangue, alguns anos antes de o século realmente começar.

A música brasileira do século XXI é a história de quatro movimentos que o país demorou a reconhecer pelo que eram. O funk deixou os bailes da periferia carioca e se tornou o gênero de exportação mais bem-sucedido desde a bossa nova — sem que nenhuma gravadora tradicional tivesse planejado isso. O forró universitário criou um mercado de entretenimento jovem que transformou cidades do Nordeste em polos de produção cultural nacional. O sertanejo se industrializou de uma maneira que a crítica musical nunca soube como avaliar e o público nunca parou de consumir. E a música indígena contemporânea chegou às plataformas de streaming como uma afirmação de existência que não precisava de validação de ninguém.

Quatro movimentos, quatro geografias, quatro lógicas de produção completamente distintas. E uma pergunta que atravessa todos eles: quando a música se torna grande o suficiente para ser negócio, quem fica com o crédito e quem fica com o dinheiro?

I. Manguebit — a lama que digitalizou

O manifesto do manguebit foi escrito por Chico Science e Fred Zero Quatro em 1992 e distribuído em papel, mimeografado, para jornalistas e músicos no Recife. Era um texto estranho: misturava referências a satélites de comunicação com imagens de caranguejos no mangue, citava Marshall McLuhan ao lado de cosmologias indígenas do Nordeste, prometia ligar o Recife — uma cidade que o próprio texto descrevia como atolada na lama do subdesenvolvimento — à rede global de informação que ainda não tinha nome de internet na linguagem popular. Era um projeto estético e político ao mesmo tempo, o que no Brasil raramente produz resultados sem conflito.

A particularidade do manguebit estava na recusa de hierarquia entre as referências. O maracatu de baque virado — um gênero que vinha dos terreiros afro-brasileiros de Pernambuco, praticado por comunidades de periferia com pouco acesso à infraestrutura da indústria fonográfica — tinha o mesmo peso estético que o rock pós-punk de Joy Division ou o hip-hop de Public Enemy. Não havia fusão no sentido de diluição: havia coexistência tensa, fricção deliberada entre elementos que a lógica de mercado normalmente mantinha separados.

O manguebit não era tropicalismo dos anos 1990. Era outra coisa. O tropicalismo deglutia o estrangeiro para transformá-lo em coisa brasileira. O manguebit ligava o local ao global sem pedir permissão e sem precisar transformar nada em outra coisa. O maracatu não precisava virar rock para ser contemporâneo. Já era.

Chico Science e o corpo que dançava na fronteira

Francisco de Assis França, Chico Science, vinha de Olinda e havia crescido ouvindo as duas coisas simultaneamente: o maracatu dos terreiros de sua família e o rock que chegava via rádio FM e fitas cassete copiadas. A síntese que construiu não era intelectual — era corporal. Era sobre como esses ritmos podiam coexistir no mesmo corpo que dança, e só depois sobre como podiam coexistir no mesmo disco.

Da Lama ao Caos (1994) saiu pela Sony, o que foi ao mesmo tempo uma conquista e uma ironia: a maior gravadora multinacional do mundo distribuindo um disco de maracatu com distorção gravado numa cidade que o mercado fonográfico nacional sempre havia tratado como periferia. A Sony não sabia muito bem o que tinha nas mãos — o disco vendeu razoavelmente bem no Brasil e extraordinariamente bem na Europa, onde havia uma audiência para fusões pós-coloniais que o mercado brasileiro ainda não havia aprendido a nomear.

Nação Zumbi — o que fica quando o fundador parte

Depois da morte de Chico Science, a Nação Zumbi poderia ter encerrado. Era o que a lógica da indústria fonográfica sugeria: uma banda criada em torno de uma personalidade central, sem ela, tende a se dissolver. A Nação Zumbi fez o oposto — continuou, lançou discos, fez shows, e o fez de uma maneira que não tentava imitar a presença de Chico Science nem apagar o que ele havia sido. Jorge Du Peixe assumiu os vocais e o grupo desenvolveu uma estética própria que mantinha a tensão entre o eletrônico e o percussivo que havia sido a marca do manguebit.

A trajetória pós-Science da Nação Zumbi é um caso raro na música brasileira: a sobrevivência criativa de um projeto coletivo que havia perdido seu membro mais visível. Diz algo sobre a qualidade da proposta estética original que ela fosse robusta o suficiente para existir sem a pessoa que a havia formulado primeiro.

Análise · Composição e síntese

"A Cidade" — maracatu como profecia urbana

"A Cidade" (1994), do disco Da Lama ao Caos, é talvez a canção que melhor sintetiza o projeto manguebit em suas dimensões estética e política. A letra mapeia o Recife através de seus bairros e contradições — Casa Amarela, Beberibe, Capibaribe, os mangues — como se a cidade fosse um organismo que respira e que pode tanto engolir quanto ser engolido. A bateria eletrônica e o baque de maracatu não se alternam: soam simultaneamente, criando uma textura rítmica que o ouvinte formado em qualquer das duas tradições reconhece como familiar e como estranha ao mesmo tempo.

A canção foi regravada, sampleada e citada por dezenas de artistas posteriores, de DJs de baile funk do Rio a artistas de MPB experimental de São Paulo. Seu percurso diz algo sobre o que o manguebit produziu de mais duradouro: não um gênero delimitado, mas uma lógica de abertura que permite que qualquer ritmo brasileiro dialogue com qualquer linguagem contemporânea sem precisar pedir desculpas por nenhum dos dois lados.

Capítulo 10 · Seção II

Baile Funk — a periferia
que globalizou

O ritmo que nasceu nos bailes da Zona Norte do Rio chegou às pistas de dança de Londres e Berlim sem que nenhuma gravadora tradicional tivesse planejado isso

A história do funk carioca começa nos bailes black do Rio de Janeiro dos anos 1970 — festas enormes em subúrbios da Zona Norte e da Baixada Fluminense onde se tocava soul americano, James Brown, Kool and the Gang, o que chegava de fita cassete dos Estados Unidos. O DJ tinha mais importância que o cantor; o corpo tinha mais importância que a letra. Era uma cultura de baile, não de show, e essa distinção produziria consequências musicais profundas ao longo das décadas seguintes.

Nos anos 1980, quando o Miami Bass chegou ao Brasil via fitas e discos importados, os DJs dos bailes cariocas apropriaram a batida eletrônica do Sul da Flórida e começaram a adicionar elementos próprios: vocais em português, narrativas das periferias cariocas, uma velocidade e uma densidade rítmica que o Miami Bass original não tinha. O resultado foi chamado de funk carioca, depois simplesmente funk — e era uma linguagem musical completamente nova, desenvolvida sem acesso às gravadoras, sem rádio FM e sem a aprovação da crítica especializada.

DJ Marlboro foi o primeiro produtor a tentar documentar e distribuir essa música pelos canais formais da indústria fonográfica. Sua coletânea Funk Brasil (1989) foi o primeiro registro profissional de um gênero que já movia centenas de milhares de pessoas nos bailes das periferias cariocas. A imprensa cultural da época reagiu com uma mistura de incompreensão e desprezo que se tornaria o padrão por décadas: o funk era tratado como barulho das favelas, não como música.

Nos anos 2000, o funk atravessou uma transformação que ninguém havia previsto: saiu das periferias e dos bailes e entrou nas pistas de dança das classes médias, primeiro no Rio e depois em São Paulo. Claudinho e Buchecha haviam iniciado essa travessia nos anos 1990 com um funk mais melodioso que o das batidas pesadas dos bailes. Mas foi a geração de Mr. Catra, Tati Quebra Barraco e Deize Tigrona que forçou o debate cultural: o funk das letras explícitas e das batidas duras não era produto de classe média tolerando a periferia — era a periferia existindo nos seus próprios termos, sem pedir permissão estética a ninguém.

Produtor · Fundador

DJ Marlboro

Primeiro a registrar e distribuir funk carioca pela indústria fonográfica formal. Produtor, DJ e documentarista do gênero desde os anos 1980.

MC · Letrista

Mr. Catra

Voz do funk carioca das letras densas e das narrativas da periferia. Colaborou com artistas de MPB, rap e eletrônica, recusando qualquer definição de gueto musical.

MC · Exportação global

Anitta

Primeiro artista de funk carioca a ter presença consistente nos charts internacionais. Sua trajetória é inseparável do debate sobre autoria, gênero e classe na música brasileira contemporânea.

A virada global do funk brasileiro aconteceu de maneiras que a indústria fonográfica demorou a entender. Os DJs europeus — especialmente os da cena de baile funk de Londres, Amsterdam e Berlim, formada por imigrantes e filhos de imigrantes brasileiros — importaram as batidas cariocas e as misturaram com grime britânico, dancehall jamaicano e kuduro angolano. O resultado foi uma música de pista de dança que soava simultaneamente nova e familiar para ouvidos de todos esses contextos — e que os selos de música eletrônica europeus começaram a lançar com o label genérico de baile funk sem necessariamente rastrear a genealogia carioca do que estavam distribuindo.

Diplo, o produtor americano de electro-pop, lançou em 2004 o documentário Favela on Blast e o álbum compilatório correspondente, que trouxeram o funk carioca para a atenção de uma audiência de música eletrônica globalizada. O movimento foi ao mesmo tempo um ato de curadoria legítima e um ato de extração: a música chegou aos circuitos globais de alta visibilidade com o nome de um produtor americano na capa, enquanto os MCs e DJs cariocas que haviam criado a linguagem recebiam crédito secundário. É uma história que a música popular repete em todas as gerações — bossa nova chegou à América via Stan Getz; funk chegou à Europa via Diplo — e que o Brasil raramente consegue processar sem oscilação entre o orgulho da influência e a raiva da invisibilização.

III. Forró universitário — quando o Nordeste foi à cidade e a cidade foi ao Nordeste

Existe uma confusão produtiva no termo forró universitário: sugere que o gênero foi criado na universidade, quando na verdade foi criado pelos universitários que saíram de suas cidades do interior do Nordeste para estudar em Fortaleza, Recife, João Pessoa, Natal — e levaram consigo uma nostalgia do forró de casa que os levou a criar uma versão nova do gênero, mais elétrica, mais rápida, com letras mais próximas do cotidiano da festa universitária.

O forró original — o de Luiz Gonzaga, o baião, o xote, o xaxado — era uma música do interior para o interior, ou do interior para os migrantes que haviam levado consigo para São Paulo e Rio de Janeiro a memória de onde vieram. A chegada do forró às universidades nos anos 1990 criou uma nova audiência: jovens de classe média nordestina que não tinham a memória do interior e que queriam uma versão do forró que pertencesse a eles. Mastruz com Leite, Calcinha Preta e Aviões do Forró foram as bandas que definiram essa estética — sanfona elétrica, triângulo e zabumba, mas com a velocidade de um show de rock e as letras de uma festa de faculdade.

Wesley Safadão e a economia da alegria

Wesley Safadão — Wesley Oliveira da Silva — começou como vocalista do Garota Safada, banda de forró de Fortaleza que, ao longo dos anos 2000, transformou o forró universitário numa indústria de entretenimento com lógica própria: turnês com quarenta pessoas na equipe, ônibus de luxo, patrocínios, merchandise, contratos de exclusividade com produtoras de eventos. Quando lançou carreira solo em 2013, o modelo estava tão consolidado que sua primeira turnê solo já tinha estrutura de tour internacional de artista pop.

O sucesso de Safadão levantou uma questão que o debate sobre música popular brasileira raramente sabe como articular: quando a alegria se torna um produto, o que acontece com a alegria? O forró universitário em sua versão mais industrial é uma música de festa perfeita — rítmica, direta, funcional, sem ambiguidade e sem profundidade intencional. É possível criticar essa escolha estética, mas é difícil ignorar que ela responde a uma necessidade real de um público real com direito a se divertir nos seus próprios termos.

Capítulo 10 · Seção IV

Sertanejo Industrial —
o gênero que a crítica
não conseguiu parar

Do caipira ao universitário, do universitário ao pop: como o sertanejo se tornou o maior negócio da música brasileira sem precisar da aprovação de ninguém

O sertanejo caipira — o de Tonico e Tinoco, de Tião Carreiro e Pardinho, de Pena Branca e Xavantinho — era uma música do interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, tocada com viola de dez cordas e cantada em terças, sobre a saudade do campo, o trabalho da roça, o amor que partiu. Era uma música de identidade regional — e como toda música de identidade regional, era amada por quem a vivia e ignorada por quem não precisava dela.

O sertanejo universitário chegou nos anos 1990 com Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano e João Paulo e Daniel, e fez com o sertanejo algo parecido com o que o forró universitário havia feito com o forró: manteve a viola e a dupla, mas substituiu a temática rural pela temática romântica urbana, acelerou o andamento, adicionou bateria eletrônica, e criou um produto que as rádios populares podiam tocar sem precisar justificar para nenhuma audiência específica. O resultado foi o maior fenômeno de vendas da história da música popular brasileira na era do CD.

O que veio depois — o sertanejo pop dos anos 2010, o que a imprensa chamou de sertanejo universitário na segunda geração, com Gusttavo Lima, Luan Santana e Marília Mendonça — foi uma nova síntese: o pop americano e o forró universitário injetados na espinha dorsal da dupla sertaneja. A viola sumiu da frente. O produtor ganhou o mesmo peso que o compositor. E o show se tornou a principal fonte de receita, superando o disco — antecipando em anos o que o streaming faria com o modelo econômico da indústria inteira.

Precursora · Raiz

Pena Branca e Xavantinho

A dupla mais respeitada do sertanejo de raiz. Xavantinho morreu em 1999; Pena Branca em 2010. Eram a consciência do gênero — amados pela crítica, pouco ouvidos pelo mercado que o sertanejo havia criado.

Artista · Geração pop

Marília Mendonça

A compositora que escreveu o feminejo — sertanejo narrado pela perspectiva feminina da dor, da traição, do abandono. Morreu em 2021, aos 26 anos, num acidente de avião. Era a artista mais ouvida do Brasil no Spotify.

Compositor · Bastidores

Renato Teixeira

Compositor de "Romaria" — uma das canções mais gravadas da música brasileira, eternizada pela voz de Elis Regina. Ficou décadas nas margens do sertanejo que havia ajudado a formatar, sem a visibilidade dos artistas que gravavam suas canções.

V. Música indígena contemporânea — existir é um ato político

Não existe uma música indígena contemporânea singular — existem centenas delas, em línguas, estilos e contextos completamente distintos, produzidas por povos com histórias, territórios e relações com o estado brasileiro radicalmente diferentes. O que existe em comum é uma transformação que as plataformas de streaming tornaram possível a partir dos anos 2010: a capacidade de uma aldeia lançar música para o mundo sem passar por nenhum intermediário da indústria fonográfica tradicional.

Kaê Guajajara, do povo Guajajara do Maranhão, mistura canto tradicional com música eletrônica e beats contemporâneos, cantando em português e em sua língua materna. Djuena Tikuna, do povo Tikuna do Amazonas, lança música instrumental baseada em cantos e instrumentos tradicionais com produção que não tem nenhuma concessão ao que a indústria fonográfica esperaria de uma artista indígena. O coletivo de rap Brô MC's, da aldeia Dourados no Mato Grosso do Sul, canta rap em português e em Guarani sobre demarcação de terras, racismo e a resistência cotidiana do povo Guarani-Kaiowá.

A música indígena contemporânea não é uma curiosidade etnográfica digitalizada. É uma afirmação de que os povos originários do Brasil existem no presente — não como sobreviventes de um passado que a narrativa nacional preferia acreditar que havia acabado, mas como produtores de cultura contemporânea com tanto direito ao presente quanto qualquer artista de São Paulo ou Rio de Janeiro.

O que torna a música indígena contemporânea um fenômeno musical novo não é apenas a presença nas plataformas digitais — é a forma como ela desafia categorias. Não é MPB, não é world music no sentido que os selos europeus davam ao termo nos anos 1980 e 1990 (quando significava principalmente música folclórica de países do Sul Global adaptada para ouvidos ocidentais), não é música experimental, não é música popular no sentido convencional. É uma forma de fazer música que existe nos seus próprios termos e que, ao chegar ao streaming, obriga as plataformas e o público a lidar com categorias que seus algoritmos não sabem muito bem como classificar.

VI. O que o século XXI ensinou sobre música brasileira

Há um fio que atravessa todos os movimentos musicais do Brasil no século XXI e que se torna mais nítido quanto mais se olha para eles: o colapso dos mediadores. O funk chegou ao mundo sem a intermediação das gravadoras tradicionais. A música indígena chegou ao streaming sem passar por produtoras de world music. O forró universitário criou seu próprio circuito de shows, sua própria rede de distribuidores, suas próprias rádios — sem precisar de São Paulo como centro distribuidor. O sertanejo construiu uma indústria paralela em Goiânia que hoje é mais robusta que partes significativas da indústria musical paulistana.

A internet não causou esse colapso — acelerou uma tendência que já estava em curso. O Brasil sempre teve uma indústria musical centralizada no Rio e em São Paulo que funcionava como porteiro: determinava o que era ou não era música brasileira legítima, o que merecia distribuição nacional, o que podia aparecer na imprensa especializada. Quando esse porteiro perdeu o controle das chaves — com o pirataria dos anos 1990, com a digitalização dos anos 2000, com o streaming dos anos 2010 — o que estava do lado de fora entrou, e a música brasileira se tornou muito maior e muito mais diversa do que a crítica especializada havia previsto que seria.

A questão que fica, e que este capítulo não resolve porque nenhum capítulo pode resolver, é a da distribuição do benefício. A diversidade chegou; a equidade não chegou com ela. O funk é ouvido em todo o mundo e os DJs fundadores do gênero vivem em condições de invisibilidade econômica. A música indígena está no Spotify e os detentores da tradição que ela transforma não têm mecanismos de compensação. O sertanejo gera bilhões em faturamento e os compositores de bastidores negociam individualmente, sem sindicato, sem proteção, sem crédito público. O problema não mudou — apenas ficou mais visível porque a música ficou maior.

Cronologia — a música brasileira no século XXI

1994

Chico Science & Nação Zumbi lançam Da Lama ao Caos

Primeiro disco do manguebit. Fundação de uma linguagem que o século XXI só reconheceria plenamente depois.

1997

Morte de Chico Science

30 anos, BR-232. O fundador do manguebit morre antes de ver o século que havia ajudado a inaugurar musicalmente.

2004

Favela on Blast — o funk chega ao circuito global

O documentário de Diplo leva o funk carioca às pistas da Europa e dos EUA. O debate sobre curadoria e apropriação começa a ter nome.

2009

Emicida lança o EP Pra Quem Já Mordeu um Cachorro por Comida, Até que Eu Cheguei Longe

O rap brasileiro entra nos anos 2010 com uma nova geração que radicaliza o projeto dos Racionais MC's sem repeti-lo.

2012

Brô MC's lança "Guerreiro" — rap em Guarani

O coletivo da aldeia Dourados inaugura a presença do rap indígena nas plataformas digitais brasileiras com letras sobre demarcação e resistência.

2017

Marília Mendonça ganha o Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja

Primeiro Grammy Latino para o feminejo — e sinal de que o sertanejo havia chegado ao nível de reconhecimento internacional que a crítica nacional ainda relutava em conceder.

2019

Anitta entra no Top 50 Global do Spotify

Primeiro artista de funk brasileiro a alcançar o top 50 do ranking global da plataforma. A globalização do baile funk se torna estatística.

2021

Morte de Marília Mendonça

26 anos, acidente de avião em Minas Gerais. A artista mais ouvida do Brasil no Spotify morreu no mesmo ano em que seu disco havia sido lançado.

Playlist · Capítulo 10

O Século XXI — cinco músicas brasileiras e um mundo

Manguebit de Recife, funk carioca de exportação, forró elétrico nordestino, sertanejo pop do cerrado e rap indígena em Guarani. Cinco gêneros, cinco geografias, cinco formas de ser brasileiro no presente — e de questionar o que essa palavra significa.

O que este capítulo passa adiante

Como o manguebit, o funk, o forró universitário, o sertanejo industrial e a música indígena contemporânea alimentam o que virá.

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