BERA Brasil em Compasso Capítulo 09

Capítulo 09

Redemocratização
e Explosão

O rock veio com guitarras e raiva. O pagode veio dos terreiros do subúrbio. O rap chegou nas periferias de São Paulo. Três movimentos simultâneos, três formas de dizer que o Brasil havia mudado de vez

Período1985–1994
Tom narrativoLiterário-poético
Leitura~30 minutos

250k

Pessoas no Rock in Rio

Cada noite do festival de janeiro de 1985 — o maior evento musical da história do Brasil até então. A ditadura acabava. O palco dizia isso.

1983

Primeiro pagode no Cacique

O Cacique de Ramos, na Zona Norte do Rio, começa a receber os ensaios que iriam criar o pagode tal como a música brasileira passou a conhecer.

1988

Racionais MC's formados

Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay formam o grupo em São Paulo. A periferia passou a ter sua própria voz — e o Brasil demorou mais de uma década para ouvi-la de verdade.

36

Anos de Renato Russo

Renato Manfredini Jr. morreu em 1996 com essa idade. A maior voz do rock brasileiro dos anos 1980 não chegou a ver o século que sua música havia ajudado a inaugurar.

Em janeiro de 1985, enquanto o Rock in Rio reunia 250 mil pessoas em todo o festival, com picos de 80 mil a 100 mil pessoas na Barra da Tijuca, o Brasil vivia uma das suas semanas mais estranhas: o Colégio Eleitoral havia acabado de eleger Tancredo Neves presidente, encerrando vinte e um anos de ditadura militar — mas o Rock in Rio havia sido planejado e confirmado ainda sob o regime. O festival aconteceu nesse limiar exato, com um pé na ditadura que acabava e outro na democracia que ainda não havia começado. Era o lugar certo para o rock brasileiro existir: na fresta, no momento de transição, na hora em que as regras antigas ainda valiam e as novas ainda não tinham nome.

O que os anos 1985 a 1994 produziram musicalmente no Brasil é único na história do país: três movimentos radicalmente distintos florescendo ao mesmo tempo, quase sem se tocar, cada um com sua estética, sua classe, sua raça, sua geografia. O rock — chamado de BRock pela imprensa — era predominantemente branco e de classe média, tocava nas rádios FM e enchia ginásios. O pagode vinha dos terreiros e dos quintais da Zona Norte do Rio, era negro e suburbano, tocado com violão de sete cordas e banjo e pandeiro; a imprensa demorou anos para levá-lo a sério. O rap crescia nas periferias de São Paulo com uma urgência que o mercado fonográfico não sabia como processar e preferiu ignorar por uma década inteira.

O Brasil dos anos 1980 foi um país que aprendia a falar em liberdade — e o fazia com três vozes simultaneamente, em registros que raramente se cruzavam. Esta é a história das três vozes. E dos que tornaram cada uma delas possível sem jamais receber o nome que mereciam.

I. O BRock — quando a classe média branca aprendeu a gritar

A história do rock brasileiro costuma começar em 1982, com o lançamento do primeiro disco dos Paralamas do Sucesso e com a cena que se formava no Circo Voador, no Rio. Mas essa data é arbitrária, como toda data na história cultural. O que aconteceu em 1982 foi a consolidação de algo que havia sido construído ao longo de anos nas garagens e salas de ensaio de jovens de classe média que haviam crescido ouvindo rock anglofônico e que queriam criar uma versão brasileira — não tropicalista, não antropofágica no sentido oswald-de-andradiano, mas direta, com letra em português e raiva genuína na voz.

Renato Russo ensaiava a Legião Urbana em Brasília desde 1978, primeiro como Aborto Elétrico, depois como Legião. A escolha de Brasília não é acidente geográfico — é dado cultural central. Brasília era a cidade mais jovem do Brasil, construída do zero por decreto, sem tradição musical própria, sem o peso do samba carioca ou do baião nordestino. Era o lugar perfeito para um rock que não precisava se justificar em relação a nada que existia antes. Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá criaram ali uma estética que misturava pós-punk britânico, poesia romântica tardia e uma honestidade emocional que a MPB sofisticada havia evitado por considerar excessiva.

O disco de estreia da Legião Urbana saiu em 1985 — o mesmo ano do Rock in Rio, o mesmo ano da abertura democrática. O timing era perfeito não por cálculo mas por coincidência histórica: o país que saía da ditadura era exatamente o público que precisava de músicas que dissessem diretamente o que sentiam, sem metáfora obrigatória, sem duplo sentido por necessidade de sobrevivência. "Geração Coca-Cola" e "Será" eram canções que um jovem de dezoito anos podia cantar no ônibus sem precisar decodificar. Após vinte e um anos de canção alegórica, isso era uma forma de liberdade que parecia óbvia mas não era.

O rock brasileiro dos anos 1980 não nasceu do nada — nasceu da exaustão da metáfora obrigatória. Quando a ditadura acabou, havia uma geração inteira de jovens que queria falar direto. Renato Russo entendeu isso antes de qualquer outro compositor do período. E pagou o preço de ser mal compreendido por todos os lados ao mesmo tempo.

Cazuza — a voz que queimou em dois atos

Agenor de Miranda Araújo Neto, Cazuza, foi a figura mais contraditória e mais intensa do rock brasileiro dos anos 1980. Filho de João Araújo, poderoso executivo da Som Livre, nasceu com acesso ao mercado que a maioria dos músicos de sua geração jamais teria. Mas transformou esse acesso numa carreira de autossabotagem artística — não por irresponsabilidade, mas por uma honestidade radical que o mercado achava perigosa e o público adorava exatamente por isso.

Com os Barão Vermelho, Cazuza criou um rock de guitarras duras e letras melodramáticas que deviam mais ao romantismo exaltado de um Carlos Drummond de Andrade jovem do que ao punk anglofônico que parte da cena brasileira imitava. "Pro Dia Nascer Feliz" (1983) era uma canção sobre a impotência de uma geração — a que havia crescido sob a ditadura e chegado à democracia sem saber muito bem o que fazer com ela. Em 1985 saiu do Barão e seguiu carreira solo; o primeiro disco, simplesmente "Cazuza", mostrava um compositor que havia aprendido a fazer canção popular sem abrir mão de nada.

Em 1989, Cazuza revelou publicamente que era soropositivo para o HIV — num país que ainda tratava a Aids como assunto a ser evitado. A decisão de tornar público o diagnóstico, e de continuar compondo e se apresentando enquanto adoecia, transformou os últimos dois anos de sua vida numa obra em si mesma. "Ideologia" (1988) e "O Tempo Não Para" (1988) são canções que carregam o peso de alguém que sabe que o relógio está correndo — e que escolheu não disfarçar isso. Morreu em julho de 1990, aos trinta e dois anos.

Os Titãs — o rock que não queria ser bem comportado

Enquanto a Legião Urbana era poética e o Barão era intenso, os Titãs eram outra coisa inteiramente: eram barulhento, irônico, politicamente explícito de uma forma que o rock brasileiro raramente havia sido. "Polícia" (1985), "Comida" (1987), "Diversão" (1988) — cada uma dessas canções era um manifesto comprimido em dois ou três minutos, sem metáfora, sem alegoria necessária: queria dizer o que dizia e dizia o que queria dizer.

A formação dos Titãs era incomum para uma banda de rock: nove integrantes em determinados momentos, todos capazes de cantar, todos com voz criativa no processo. Arnaldo Antunes, Branco Mello, Sérgio Britto, Tony Bellotto, Nando Reis — eram compositores individuais que funcionavam coletivamente numa dinâmica que a indústria fonográfica não sabia muito bem como catalogar. O resultado era um som que não podia ser reduzido a um nome, a uma voz, a um rosto de pôster. Para o mercado, isso era um problema. Para a música, era uma virtude rara.

Análise · Composição coletiva

"Comida" — uma canção escrita por quem tinha fome de tudo

"Comida", composta por Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto para o álbum "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987), é o exemplo mais acabado do que os Titãs faziam de diferente. A canção começa como lista de desejos materiais e vai acumulando abstrações até chegar em "a gente não quer só comida / a gente quer comida, diversão e arte". É materialismo dialético disfarçado de refrão de rock. É Brecht em três acordes. E é, acima de tudo, uma canção que qualquer pessoa podia cantar sem perceber exatamente o que estava cantando — o que é, tecnicamente, uma façanha poética.

O crédito triplo na composição é significativo: raramente a canção brasileira reconhece explicitamente a autoria compartilhada. Os Titãs faziam disso uma questão de princípio — e esse princípio, por ser raro, passou despercebido como o gesto político que era.

II. O BRock e suas fronteiras — o que ficou de fora do ginásio

A narrativa do BRock tem um centro bem iluminado — Legião, Barão, Titãs, Paralamas, RPM — e uma periferia que raramente aparece nas retrospectivas de dezembro. Mas é nessa periferia que algumas das músicas mais interessantes do período foram feitas.

Seção especial · Rio de Janeiro · Anos 1980

O Pagode — quando o subúrbio criou seu próprio idioma

No Cacique de Ramos, numa quadra da Zona Norte do Rio, um grupo de sambistas inventou um som que a imprensa levou anos para levar a sério — e que o Brasil inteiro cantou antes de saber o que estava cantando.

O Grupo Fundo de Quintal começou a se reunir nos ensaios do Cacique de Ramos, bloco carnavalesco da Penha, no início dos anos 1980. Não havia nada de programático naqueles encontros: eram sambistas que se gostavam, que queriam tocar junto, que experimentavam com instrumentos que o samba convencional havia descartado ou nunca havia abraçado — o banjo de quatro cordas, o repique de mão, o tantã. O resultado foi um som mais leve, mais conversado, mais próximo do quintal do que do terreirão de escola — daí o nome pagode, que no vocabulário do samba tradicional significava simplesmente uma reunião informal de sambistas.

O que aconteceu entre 1983 e 1987 com aquele som é uma das histórias mais fascinantes e mais mal contadas da música brasileira. O pagode saiu do Cacique de Ramos, foi para as quadras dos subúrbios, chegou às rádios AM, foi ignorado pelas rádios FM e pelos críticos de classe média — e enquanto esses críticos olhavam para o BRock como o fenômeno cultural dos anos 1980, o pagode vendia discos em números que o rock brasileiro jamais alcançaria. Beth Carvalho, que havia frequentado aqueles ensaios desde o início e que gravou vários dos sambistas do Cacique em seus discos, funcionou como a ponte entre o subúrbio e o mercado fonográfico convencional. Sem Beth, o pagode teria demorado ainda mais para chegar às gravadoras.

Mas o pagode que chegou ao mercado no final dos anos 1980 já não era exatamente o pagode do Cacique de Ramos. O mercado simplificou, comercializou, criou uma versão do pagode que vendia bem e que, por vender bem, passou a ser confundida com o original. É a dinâmica habitual de qualquer movimento cultural que o mercado abraça: o que o mercado abraça é sempre a versão que pode ser replicada industrialmente, não a versão mais inventiva ou mais radical.

Fundador e compositor

Arlindo Cruz

Uma das vozes mais completas do samba brasileiro do século XX. Compositor de "Minha Filosofia" e dezenas de outras canções que definiram o idioma do pagode. Sofreu um AVC em 2017 e desde então está afastado dos palcos — a tragédia que a mídia cobre, mas o legado que ela trata com menos atenção do que merece.

Voz e mediadora cultural

Beth Carvalho

A madrinha do pagode — mas o título reduz o que ela fez. Beth era curadora: identificava talentos no Cacique de Ramos, gravava suas músicas, levava para as gravadoras. Sem Beth, não há registro comercial do pagode dos anos 1980. Com Beth, o pagode chegou ao Brasil antes que o Brasil soubesse o que era.

Instrumentista pioneiro

Almir Guineto

Popularizou o banjo de quatro cordas no samba — instrumento que havia sido usado no choro do início do século e que o pagode ressuscitou com uma função rítmica completamente nova. O banjo de Almir Guineto é o som que identifica o pagode imediatamente. Raramente se diz seu nome quando se fala desse som.

Compositor e voz

Zeca Pagodinho

Jessé Gomes da Silva Filho, de Irajá, chegou ao pagode pela via do trabalho: entregava água no Cacique de Ramos e cantava enquanto trabalhava. Alguém ouviu. O resto é uma carreira de quatro décadas e uma filosofia expressa em samba que o Brasil inteiro sabe de cor sem sempre compreender sua profundidade.

Percussionista e criador

Sereno (Bira Presidente)

Bira Presidente e outros percussionistas do Fundo de Quintal criaram o tantã — instrumento de percussão que o pagode inventou do zero — e o repique de mão. O som que reconhecemos imediatamente como pagode foi construído nessa laboratório informal. O instrumento ficou. O criador foi esquecido.

Sambista e compositor

Jovelina Pérola Negra

Uma das poucas mulheres a protagonizar o pagode original. Compositora de "Bota o Retrato do Velho no Lugar" e outras canções fundamentais. Morreu em 1998, de causas relacionadas ao alcoolismo, com uma obra que continua sendo executada sem que seu nome seja lembrado na mesma proporção.

Invisibilizado · Arquiteto do som

Almir Guineto — o homem que trouxe o banjo de volta e não ficou com o crédito

Almir Guineto — Almir Clementino de Jesus — não inventou o banjo. Mas inventou o banjo do pagode: um instrumento de quatro cordas, afinado de forma específica, com uma função rítmica e melódica que o samba nunca havia usado daquela maneira. Quando você ouve pagode e reconhece imediatamente o gênero pelo timbre específico daquele instrumento de cordas cortante e brilhante, está reconhecendo a contribuição de Almir Guineto.

No entanto, seu nome raramente aparece nas histórias do pagode com a mesma frequência que os dos sambistas que cantam. A distinção entre o que é visto e o que é ouvido reproduz, dentro da música, uma hierarquia mais antiga: o compositor-instrumentista que não é voz principal ocupa sempre um degrau abaixo na memória popular. Almir Guineto gravou discos próprios, tinha uma carreira completa — mas o instrumento que criou ficou mais famoso do que o criador.

Morreu em 2017. O obituário que recebeu foi menor do que merecia. O banjo que inventou continua soando em todos os pagodes do Brasil.

O pagode dos anos 1980 foi o primeiro movimento musical de massa do Brasil pós-ditadura a vir das camadas populares em direção ao centro — e não do centro em direção às margens. O BRock partia da classe média progressista e chegava ao mercado de massa pelo circuito das rádios FM, dos ginásios, das gravadoras com distribuição nacional. O pagode começou no quintal, foi para a quadra, chegou à rádio AM, vendeu cassetes em bancas de jornal e só depois chegou às gravadoras que o BRock frequentava desde o início.

Essa trajetória inversa explica em parte por que o pagode foi tratado pela imprensa cultural dos anos 1980 com uma mistura de desconforto e desdém que hoje parece óbvia em sua origem de classe. Os críticos de música popular que cobriram o BRock como fenômeno cultural relevante eram, em sua maioria, da mesma classe média que ouvia Legião Urbana e Titãs. O pagode era música de subúrbio, de AM, de botequim da Zona Norte — e essa geografia social implicava, para essa crítica, uma hierarquia de valor que nenhum argumento estético chegava a questionar.

Seção especial · Brasil · Anos 1960–1990 · A Música que a Crítica Recusou Ver

O Brega e o Pop Romântico — a emoção de uma classe que a crítica nunca representou

Enquanto a crítica cultural olhava para o BRock e o Pagode, dezenas de milhões de brasileiros ouviam uma música que falava de amor, perda, sexo e abandono sem pedido de desculpa. O brega não era ingenuidade. Era a arte sentimental de quem a imprensa cultural não sabia como ler.

Há um equívoco de perspectiva que atravessa quase toda a história escrita da música popular brasileira, e ele se manifesta com particular violência na cobertura do período da redemocratização: a confusão entre a música que os críticos preferiam e a música que o Brasil ouvia. Nos anos 1970 e 1980, enquanto Chico Buarque ganhava prêmios e Renato Russo enchia ginásios, uma outra produção musical — numericamente maior, geograficamente mais dispersa, socialmente mais abrangente — acontecia em paralelo e quase invisível para a imprensa cultural dos grandes centros. Chamavam-na de brega. O nome era uma classificação depreciativa que a própria crítica havia inventado — e que os artistas e o público do movimento adotaram, com o tempo, como gesto de orgulho invertido.

O brega não é um gênero com fronteiras precisas. É um campo de produção musical que engloba o bolero brasileiro, o pop romântico de rádio AM, a balada sertaneja de classe popular, o brega eletroeletrônico do Norte e Nordeste, e uma série de artistas que partilhavam uma estética sentimental exacerbada que a crítica identificava, equivocadamente, como ausência de sofisticação. O que o brega compartilhava — em todas as suas variantes — era um projeto: falar diretamente à vida afetiva, sexual e sentimental de uma classe que a MPB elegante raramente retratava como sujeito.

30 mi Discos de Odair José Estimativa de vendas ao longo da carreira — um dos maiores números da música brasileira de qualquer gênero.
1971 Primeiro grande hit "Pare de Tomar a Pílula" — censurado pela ditadura, vendeu centenas de milhares de cópias antes de ser proibido.
500+ Composições de Odair José Um dos catálogos de composição popular mais extensos da música brasileira — quase inexistente nas antologias críticas do período.
AM O rádio que a crítica não ouvia O brega viveu na rádio AM e nas fitas K7 vendidas em feiras e bancas. A crítica ouvia FM. A diferença de frequência era também uma diferença de classe.

A origem — bolero, brega de aparelho e a linhagem sentimental brasileira

Para compreender o brega, é preciso recuar até a tradição do bolero que chegou ao Brasil pelos anos 1940 e 1950 — via México e Cuba, via rádio e depois disco. O bolero era, em sua essência, uma canção de dor sentimental direta: amor perdido, abandono, ciúme, saudade sem metáfora e sem pudor. Não precisava de subterfúgio político nem de sofisticação harmônica para funcionar. Precisava de sinceridade emocional — e de uma voz capaz de transmiti-la com a devida intensidade.

Quando o bolero encontrou a influência do rock americano e as tecnologias de produção dos anos 1960 e 1970 — o baixo elétrico, a bateria amplificada, os arranjos de cordas sintéticas que as gravadoras de médio porte produziam em série — criou-se o embrião do que se chamaria de brega. No Norte e no Nordeste do Brasil, esse encontro produziu uma variante específica: o "brega de aparelho" — chamado assim porque era executado ao vivo com equipamento de som amplificado (o "aparelho") em festas, quadras e forró eletrônico. Em Belém do Pará, Fortaleza e Recife, esse som tinha nomes regionais, artistas locais e uma indústria de shows itinerantes que funcionava completamente à margem do mercado fonográfico dos grandes centros.

No Sudeste, o mesmo impulso estético produziu artistas como Odair José, Waldick Soriano, Wando, Reginaldo Rossi e Agnaldo Timóteo — cada um com uma identidade distinta, mas todos partilhando uma característica que a crítica transformou em acusação: cantavam sentimento em excesso. Choravam no microfone. Cantavam infidelidade e perdão e sexo e arrependimento com uma franqueza que a canção "de qualidade" havia aprendido a evitar.

Personagem Central · A voz que nunca pediu permissão

Odair José

Odair José Araújo (1944, Estrela do Norte, GO) — o compositor que cantou a vida sexual e afetiva da classe trabalhadora brasileira com uma honestidade que a crítica chamou de vulgaridade

Odair José Araújo nasceu em 1944 em Estrela do Norte, Goiás — hoje município de São Simão — numa família pobre do interior. Chegou a São Paulo nos anos 1960 como migrante, trabalhou como ajudante de pedreiro e empregado de borracharia antes de conseguir gravar seus primeiros compactos para a gravadora Phonogram, no início dos anos 1970. Sua trajetória biográfica era a trajetória do público que ele viria a cantar: o migrante nordestino e do interior Centro-Oeste que foi construir o Brasil industrial em São Paulo e que não encontrava, na MPB nem no rock, uma música que falasse da sua vida.

Em 1971, Odair José lançou "Pare de Tomar a Pílula" — uma canção em que um homem pede à sua companheira que pare com o método contraceptivo para que possam ter um filho. A letra era direta, sem eufemismo, sobre um assunto que a classe média progressista discutia em termos abstratos de emancipação feminina, mas que para uma parcela enorme da população era uma decisão concreta, carregada de implicações econômicas e afetivas. A ditadura censurou a música por considerar sua abordagem da sexualidade "imoral" — mas não antes que ela vendesse centenas de milhares de cópias. Era o primeiro sinal de que Odair José havia encontrado algo que a crítica não conseguia detectar: uma audiência que reconhecia sua própria vida nas suas letras.

Ao longo dos anos 1970 e 1980, Odair José construiu um catálogo que é, por qualquer medida de escuta, um dos documentos mais precisos da vida afetiva e sexual das classes populares brasileiras do período. "Eu Vou Transar Você" (1972) — censurada e retirada de circulação pela ditadura, mas já amplamente copiada em fitas K7 — era uma canção sobre desejo sexual masculino com uma franqueza que a canção popular brasileira nunca havia praticado naquele registro. "Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)" foi relançada múltiplas vezes e cada lançamento repetia o ciclo: proibição, circulação clandestina, vendas. "Se Você Pensa" (1974) era uma canção sobre a possibilidade do adultério e da separação que ressoava numa geração de casais que havia se casado cedo e sem opção legal de divórcio — o Brasil só aprovaria o divórcio em 1977.

"Você Vai Ver" (1972), "A Filha do Pescador" (1972), "Agora Sou Livre" (1973), "Não Vou Ficar" (1973), "Somente uma vez" (1975) — cada canção mapeava com precisão cirúrgica uma situação sentimental reconhecível pelo público que comprava seus discos em feiras e lojas de bairro. O que a crítica chamava de melodrama barato era, para esse público, espelho. E o espelho tinha um valor que a análise estética convencional não sabia como medir.

A censura da ditadura militar tratou Odair José com mais atenção do que a crítica cultural: ao proibir repetidamente suas músicas por "imoralidade", os censores reconheciam — involuntariamente — que havia algo politicamente significativo no que ele fazia. Uma canção que nomeia o desejo sexual da classe trabalhadora, que fala de contracepção e de escolha reprodutiva sem eufemismo, que coloca o corpo do trabalhador como sujeito de uma narrativa sentimental: isso perturbava a ordem moral conservadora com uma eficiência que a MPB de resistência alcançava por outro caminho. Odair José nunca se pretendeu político. A política estava nas letras antes que ele percebesse.

Voz do Nordeste e compositor

Waldick Soriano

Waldick Soriano dos Santos (1933–2008, Cajazeiras, PB). "Eu Não Sou Cachorro Não" (1971) — um dos hits mais vendidos da década. Cantava traição e abandono com uma raiva que a classe média achava vulgar e que o operário reconhecia como legítima. Seu catálogo é um tratado sobre a dignidade sentimental ferida.

Baladeiro e ícone do Nordeste

Reginaldo Rossi

Reginaldo Rossi da Silva (1944–2013, Recife, PE). "Garçom" (1986) — talvez a canção de desamor mais gravada e reinterpretada da música brasileira popular nas últimas quatro décadas. Rossi era pernambucano, e sua trajetória conectava o brega do Nordeste ao mercado nacional de forma que nenhuma análise de gênero musical consegue reduzir a uma fórmula.

Ícone brega e cantor

Wando

Geraldo Rodrigues de Oliveira (1949–2020, Montes Claros, MG). O mais sexualmente explícito entre os artistas do brega mainstream dos anos 1980 — capaz de cantar desejo com uma desenvoltura que a imprensa encontrava escandalosa e que o público achava exatamente o que queria ouvir. Seu personagem cênico — bigode, roupa aberta, gesticulação — era teatro popular, não ingenuidade.

Pioneiro do brega nortista

Vieira e Seu Conjunto

Benedito Vieira Lobato (1943, Belém, PA). Um dos pioneiros do brega de aparelho belenense — o som que misturava bolero com tecnologias de amplificação de som ao vivo nas festas populares da Amazônia. A variante nortista do brega tem uma história própria, quase inteiramente ignorada pela historiografia musical centrada no eixo Rio-São Paulo.

Cantor e compositor

Agnaldo Timóteo

Agnaldo Rayol Timóteo da Costa (1938–2021, Rio de Janeiro, RJ). Cantor de baladão com uma carreira que cruzou o bolero dos anos 1960, o brega dos anos 1970–80 e o pop romântico — sempre com uma teatralidade que a crítica chamava de exagero e que era, na verdade, a herança legítima da canção dramática italiana e do baladão peninsular abrasileirado.

Brega eletroeletrônico do PA

Banda Calypso

Formada em 1999 por Joelma Mendes e Chimbinha em Belém do Pará. Embora posterior ao período central deste capítulo, a Banda Calypso é o produto mais acabado e mais bem documentado do brega nortista — a versão eletrônica, dançante e espetacularmente bem-sucedida de uma tradição que vinha dos anos 1970. Vendeu mais de 10 milhões de cópias de forma independente antes que as grandes gravadoras percebessem que existia.

O que a crítica cultural chamou de brega — e o que esse nome escondia

A palavra "brega" entrou no vocabulário popular brasileiro na virada dos anos 1960 para os 1970 — originalmente como adjetivo pejorativo para designar algo de mau gosto, cafona, de baixa qualidade estética. Mas o uso da palavra no contexto musical tinha uma especificidade: "música brega" era, quase invariavelmente, música popular sentimentalóide ouvida por classes trabalhadoras e populares. A qualidade estética que a crítica considerava ausente era, na maior parte dos casos, código para outra coisa: a ausência do gosto de classe média.

Essa operação de classificação — nomear como "ausência de qualidade" o que era na verdade "presença de outro gosto" — tem um nome na sociologia cultural: é o que Pierre Bourdieu documentou extensamente em La Distinction (1979), poucos anos antes de o brega atingir seu pico comercial no Brasil. Bourdieu mostrou que o "gosto" não é uma faculdade universal e neutra: é uma forma de capital cultural distribuído de forma desigual segundo a classe, e que os grupos dominantes utilizam a definição do que é "bom gosto" como instrumento de distinção e hierarquização social. O brega brasileiro era, involuntariamente, uma demonstração perfeita desse processo.

O pesquisador Edimilson de Almeida Pereira, em seus estudos sobre a cultura popular brasileira, e o sociólogo Micael Herschmann, em trabalhos sobre o funk carioca e o brega produzidos nos anos 1990 e 2000, foram dos primeiros acadêmicos brasileiros a argumentar que o brega e o funk mereciam análise séria como formas de expressão cultural — e não apenas como fenômenos de mercado a serem explicados pela lógica da manipulação da indústria cultural. O argumento central era simples: uma música que mobiliza dezenas de milhões de pessoas durante décadas não é um fenômeno a ser descartado como "baixa cultura" — é um fenômeno a ser compreendido.

Argumento político — o que o mercado registrava

A democracia sentimental que a crítica recusou contar

Em 1980, Odair José tinha mais discos vendidos do que qualquer artista da MPB de resistência com exceção de Roberto Carlos. Waldick Soriano havia vendido, ao longo dos anos 1970, números comparáveis aos de vários artistas canônicos do BRock. Reginaldo Rossi teria, com "Garçom" em 1986, um dos maiores hits de vendas do ano — ao lado de discos de rock e pagode.

Esses números não estavam nas revistas especializadas. Não estavam nos programas de televisão do horário nobre. Não estavam nas resenhas do Jornal do Brasil ou d'O Estado de São Paulo. Estavam nas feiras livres, nas lojas de bairro, nas fitas K7 que circulavam em ônibus intermunicipais e nas caixas de som dos salões de festa do interior.

A crítica cultural que ignorou o brega não o ignorou por incompetência: ignorou-o porque o público que o consumia era invisível para a mídia que formava a opinião cultural do país. Era o público que não escrevia cartas aos jornais. Que não tinha conta em universidade. Que não era fonte para nenhum jornalista cultural. Era o Brasil que trabalhava — e que, ao chegar em casa, queria sentir em vez de pensar. Esse querer era tão legítimo quanto qualquer outro. E produziu uma música que durou décadas.

Quando a academia brasileira começou, nos anos 1990 e 2000, a estudar seriamente o brega, o funk e outras produções populares que haviam sido sistematicamente ignoradas, o que encontrou não foi ausência de sofisticação. Encontrou uma sofisticação diferente — a sofisticação de uma forma cultural que havia desenvolvido, sem aprovação institucional, suas próprias convenções, suas próprias regras de variação e inovação, seus próprios cânones internos. O brega não precisava de legitimação acadêmica para existir. Já existia. O que mudou foi a disposição de quem olhava para vê-lo.

O brega e a ditadura — uma relação paradoxal

A relação do brega com a ditadura militar é um dos aspectos mais paradoxais e menos estudados desse período. A ditadura censurou Odair José repetidamente — por "imoralidade", não por subversão política. Censurou Waldick Soriano. Censurou músicas que falavam de sexo, de infidelidade, de divórcio, de comportamentos que a moral conservadora do regime considerava ameaças à família e à ordem social. Mas nunca tratou o brega como ameaça política no sentido em que tratou o Black Rio ou a MPB de Vandré.

Esse tratamento diferencial revela muito sobre como a ditadura compreendia as classes sociais e o risco político: a canção que falava de contracepção para operários era imoral; a canção que falava de liberdade política para universitários era subversiva. As duas eram censuradas, mas por razões e com intensidades diferentes. A hierarquia da repressão refletia a hierarquia social que o regime pretendia defender.

O que a ditadura não conseguiu censurar — e que talvez nem tenha percebido — era a dimensão de autonomia que o brega representava. Uma música que falava abertamente de sexualidade, de dissolução de relações afetivas, de escolha reprodutiva, de desejo fora do casamento heterossexual normativo: essa música existia numa tensão permanente com a moral pública que o regime tentava impor. Não era resistência política consciente. Era resistência moral inconsciente — o não-cumprimento cotidiano de uma norma que o regime defendia com toda a sua força institucional.

A reabilitação — e por que chegou tarde

Nos anos 1990, algo curioso começou a acontecer nas cidades brasileiras: o brega começou a ser consumido de forma irônica por jovens de classe média que haviam crescido ouvindo rock e MPB. O fenômeno ficou conhecido, de forma imprecisa, como "brega chique" — a reapropriação camp do kitsch sentimental. Festas de brega começaram a aparecer em cidades universitárias. DJs tocavam Waldick Soriano ao lado de eletrônico. Odair José foi entrevistado por revistas que jamais o haviam coberto com seriedade.

Essa reabilitação foi real e bem-vinda — mas carregou consigo uma armadilha: o brega sendo consumido de forma irônica pela classe média é ainda uma forma de não levá-lo a sério. A ironia mantém a distância. O que o brega merecia — e que ainda não recebeu completamente — é ser lido como o que sempre foi: uma tradição de composição e interpretação popular com coerência estética própria, que produziu obras duradouras e que documentou, com uma honestidade que a MPB raramente praticou, a vida interior e sentimental das classes populares brasileiras ao longo de três décadas de transformação acelerada.

Odair José continuou gravando e se apresentando até o começo dos anos 2020. Em 2018, aos 74 anos, lançou o álbum Odair José Canta para Mulheres — recebido pela imprensa musical com um respeito que talvez nunca teria existido trinta anos antes. Tardio. Mas real.

III. O rap — a voz que o Brasil preferiu não ouvir

Em 1988, quatro jovens da periferia de São Paulo — dois de Santo André, dois do Capão Redondo — formaram um grupo chamado Racionais MC's. Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay vinham de uma cena que existia nos bailes de rap das periferias paulistanas desde o início dos anos 1980, quando os dançarinos de break que haviam aprendido com os filmes americanos de hip-hop começaram a produzir também rap — rima, ritmo, palavra.

O que os Racionais fizeram a partir de 1988 é, tecnicamente, um dos projetos artísticos mais radicais da história da música brasileira: criaram uma obra que recusava absolutamente qualquer negociação com o mercado fonográfico convencional, que falava diretamente de e para a periferia de São Paulo, e que conseguiu ao mesmo tempo ser um projeto artístico de alta elaboração formal e um documento sociológico de precisão incomum. Não era panfleto, embora parecesse panfleto para quem não queria ouvi-lo. Era poesia — embora a palavra poesia lhes parecesse, provavelmente, insuficiente.

O rap brasileiro dos anos 1988–1994 funcionou quase inteiramente fora dos circuitos que o mercado fonográfico convencional controlava. As músicas circulavam em fitas K7 nos ônibus e nos bailes; os grupos se autoproduziam; não havia gravadora grande interessada em distribuir uma música que falava de violência policial, de crack, de miséria, de um Brasil que a televisão preferia não mostrar. O mercado que ignorava o rap não o ignorava por incompetência: ignorava porque o rap dizia coisas que o mercado não queria que chegassem a audiências de massa.

Quando o rap chegou ao mainstream — depois de "Sobrevivendo no Inferno" dos Racionais MC's em 1997, depois que a crítica cultural paulistana começou a escrever sobre hip-hop como fenômeno — a primeira coisa que a narrativa fez foi apagar a geração anterior. Não por malícia deliberada, mas pela mecânica da canonização: o cânone precisa de um ponto de origem limpo, de uma data de nascimento, de um primeiro grande nome. A complexidade e a coletividade são inimigas do cânone.

Nota de fonte · Hip-hop paulistano

A documentação do hip-hop dos anos 1980 e início dos 1990 na periferia de São Paulo é fragmentada e difícil de acessar. Muito do que foi produzido circulou em fitas K7 que não foram arquivadas. A pesquisadora Nívea Alves dos Santos e o projeto Museu do Hip Hop têm feito trabalho fundamental de recuperação dessa memória — mas a lacuna é grande e, em alguns casos, irrecuperável. Esta é uma das consequências da invisibilização contemporânea: quando não se registra, não se pode recuperar.

IV. O que os três movimentos tinham em comum — e o que os separava

O BRock, o pagode e o rap eram ao mesmo tempo filhos do mesmo momento histórico — a redemocratização, a abertura, o Brasil que aprende a falar em público — e produtos de mundos sociais que raramente se tocavam. O rock era de classe média; o pagode era dos subúrbios negros do Rio; o rap era da periferia pobre de São Paulo. As três músicas falavam de liberdade, mas de liberdades distintas — a liberdade de amar quem se queria, a liberdade de sambar sem ser olhado de cima, a liberdade de existir sem ser assassinado pela polícia.

A coincidência histórica que colocou os três movimentos na mesma década criou uma ilusão de unidade que a crítica e o mercado reproduziram: "os anos 1980 foram os anos do rock brasileiro" — como se o pagode e o rap não tivessem existido no mesmo período, no mesmo país, às vezes na mesma cidade. A hierarquia que o mercado aplicou aos três movimentos foi, em parte, uma hierarquia racial e de classe disfarçada de hierarquia estética.

Quando a história diz que os anos 1980 foram "a era do BRock", ela está dizendo que a experiência cultural da classe média branca é o padrão contra o qual todo o resto é medido. O pagode vendia mais. O rap falava de algo mais urgente. Mas o que entrou nos livros de história da música brasileira foi a guitarra elétrica — não o banjo. — Uma omissão que ainda não foi completamente nomeada

Renato Russo — e o que a reverência não deixa ver

A morte de Renato Russo, em outubro de 1996, transformou-o imediatamente em ícone intocável — o poeta do rock brasileiro, o compositor que havia colocado em palavras o que uma geração sentia. A reverência é compreensível e, em parte, merecida. Renato Russo era um compositor extraordinário: a densidade literária de suas letras, a capacidade de criar canções que pareciam falar ao mesmo tempo de amor individual e de experiência histórica coletiva, a honestidade com que lidou publicamente com sua soropositividade — tudo isso compõe uma obra que resiste ao tempo.

Mas a reverência tem um custo. Quando um artista torna-se ícone, as contradições somem. Renato Russo era bisexual e abertamente assumido — e essa dimensão de sua identidade raramente aparece nas retrospectivas que celebram o "poeta da Legião". Era filho de diplomata, havia estudado em escola americana — e esse privilégio de classe que tornou possível seu acesso à cultura anglofônica raramente aparece na narrativa do "garoto de subúrbio que criou o rock brasileiro". Era, ao mesmo tempo, um homem com imensa generosidade para com os fãs e uma pessoa com dificuldades profundas que sua mitificação tende a apagar.

O ícone tem que ser limpo. A complexidade é incompatível com o pôster. E é exatamente nessa incompatibilidade que os músicos que ainda vivem, que ainda têm contradições, que ainda não morreram para se tornar estátua, têm algo que o ícone morto não pode mais oferecer: a possibilidade de errar em público, de mudar, de surpreender.

Linha do tempo — Redemocratização e Explosão

1971

Odair José lança "Pare de Tomar a Pílula" — o brega chega à indústria

Censurado pela ditadura, o compacto vendeu centenas de milhares de cópias antes de ser proibido. A música que a crítica chamaria de "brega" já era, nesse momento, o gênero de maior audiência de massa do país — e o único que ninguém na imprensa cultural sabia como nomear sem condescendência.

1982

Paralamas do Sucesso e Circo Voador — o BRock toma forma no Rio

O Circo Voador, na Lapa, torna-se o polo do rock carioca jovem. Paralamas, Barão Vermelho e dezenas de bandas menores criam a cena que o Rock in Rio irá canonizar três anos depois.

1983

Fundo de Quintal e Cacique de Ramos — o pagode cria seu som

Nos ensaios do bloco Cacique de Ramos, na Penha, Arlindo Cruz, Almir Guineto, Zeca Pagodinho e outros sambistas inventam o banjo de pagode, o tantã e o repique de mão. Um novo idioma nasce no quintal.

1985

Rock in Rio — 250 mil pessoas no festival, a ditadura acabando

O festival mais importante da história da música brasileira ao vivo acontece no limiar exato entre a ditadura e a democracia. Queen, Rod Stewart e o rock brasileiro dividem o palco numa semana que o Brasil nunca esqueceu.

1985

Primeiro disco da Legião Urbana — Brasília como origem do rock

"Geração Coca-Cola", "Será" e "Que País É Este" são lançadas. Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá criam o álbum que define o rock brasileiro dos anos 1980 — e a cidade planejada mostra que não ter tradição pode ser uma vantagem.

1986

Beth Carvalho grava o Fundo de Quintal — o pagode chega ao mercado

A madrinha do pagode funciona como curadora e produtora: leva o som do Cacique de Ramos para as gravadoras convencionais. O que o subúrbio havia inventado chega ao Brasil inteiro pelo circuito comercial.

1986

Reginaldo Rossi lança "Garçom" — o brega atinge seu hit mais duradouro

Talvez a canção de desamor mais reinterpretada dos últimos quarenta anos. Rossi era pernambucano, o brega era nordestino e carioca e belenense ao mesmo tempo — e "Garçom" é o momento em que esse gênero "sem endereço crítico" produziu uma obra que nenhuma análise de gênero consegue dispensar.

1987

"Jesus Não Tem Dentes" — os Titãs e a canção política direta

"Comida", "Polícia" e outras canções do álbum tornam-se canções de uma geração. Os Titãs mostram que o rock pode ser político sem metáfora e poético sem ser hermético.

1988

Racionais MC's formados em São Paulo — o rap brasileiro começa

Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay se encontram na periferia paulistana. O que começam a construir não será reconhecido pelo mercado por quase uma década — mas estará lá, crescendo nas fitas K7 dos ônibus.

1989

Cazuza torna público o diagnóstico de HIV — e segue compondo

Numa época em que a Aids era estigma não nomeado, Cazuza falou em público, continuou se apresentando e gravando. "O Tempo Não Para" tornou-se a canção de alguém que sabe que o tempo está correndo — e que escolheu não disfarçar isso.

1990

Morte de Cazuza — 32 anos, o rock perde sua voz mais urgente

Julho de 1990. O compositor que havia queimado mais alto — e mais rápido — deixa uma obra pequena em quantidade e enorme em intensidade. O mito começa imediatamente após a morte.

1992

"Raça Negra" e o pagode romântico — a virada comercial

O pagode se bifurca: o som original do Cacique de Ramos e uma versão mais suave, mais romântica, mais palatável para o mercado de massa. O Brasil inteiro canta. Os sambistas do Cacique olham com ambivalência.

1994

"Fim de Semana no Parque" — Racionais e a periferia que o Brasil ignora

Um dos raps mais importantes já gravados no Brasil. A periferia de São Paulo contada de dentro, com precisão literária e urgência política. O mercado fonográfico ainda não sabe o que fazer com isso. O público da periferia já sabe tudo de cor.

1999

Banda Calypso — o brega nortista chega ao país sem passar pelas gravadoras

Joelma e Chimbinha, de Belém, vendem mais de 10 milhões de cópias de forma independente antes que qualquer grande gravadora perceba que existem. É o brega de aparelho belenense em versão eletrônica e espetacular — e o modelo de distribuição autônoma que antecipa o que a internet generalizaria uma década depois.

Playlist · Capítulo 09

Redemocratização — três mundos, uma década

Legião Urbana, Cazuza, Titãs, Paralamas. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jovelina Pérola Negra, Fundo de Quintal. Racionais MC's, Thaíde e DJ Hum, GOG. Três músicas simultâneas, três Brasis que raramente se falavam — e que esta playlist tenta colocar na mesma sala.

O que este capítulo passa adiante

Como o BRock, o pagode e o rap dos anos 1980 alimentam a música brasileira do século XXI.

BROCK Classe média branca, guitarras PAGODE Subúrbio negro, banjo, quintal RAP / HIP-HOP Periferia paulistana, flow, rima Século XXI Rock alternativo e indie brasileiro Herança direta do BRock — riffs, letras, atitude Samba contemporâneo Pagode → Arlindo Cruz, Diogo Nogueira, Péricles Funk carioca e funk ostentação Pagode + Black Rio → baile funk dos anos 1990 Trap e rap brasileiro atual Racionais → BK', Djonga, Emicida, Rico Dalasam MPB contemporânea Síntese dos três movimentos — cap. seguinte