Capítulo V · Enciclopédia dos Povos Originários

Mulheres
Indígenas

As que carregaram o mundo nas costas enquanto o mundo
fingia que elas não existiam

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Há uma dupla invisibilidade que pesa sobre as mulheres indígenas no Brasil. A primeira é a que compartilham com todos os povos originários: o apagamento histórico, a subestimação cultural, a ausência nos livros didáticos e nos debates nacionais. A segunda é específica delas: dentro do próprio campo da questão indígena, as mulheres foram por décadas tratadas como figura de fundo — presentes nas fotografias, ausentes nos microfones. O protagonismo era, quase sempre, masculino.

Isso nunca correspondeu à realidade. As mulheres indígenas foram, em muitas culturas, as guardiãs do conhecimento mais essencial: as línguas, as sementes, as receitas, os cantos para os nascidos e para os mortos. Foram elas que, em muitas comunidades, mantiveram a memória viva enquanto os homens iam para as frentes de batalha — literais e simbólicas — com o Estado.

Este capítulo é sobre o que elas sempre foram — e sobre o que estão se tornando diante dos olhos de um país que ainda está aprendendo a vê-las.

I · O que sempre existiu

O papel das mulheres que a história não escreveu

Em muitas culturas indígenas brasileiras, as mulheres são as detentoras do conhecimento mais fundamental: o da alimentação. São elas que conhecem as plantas, os ciclos de plantio e colheita, as técnicas de preparo que transformam raízes em alimento, veneno em remédio, folha em cura. O processamento da mandioca — base alimentar de dezenas de povos amazônicos — é, em muitas culturas, um conhecimento exclusivamente feminino, transmitido de mãe para filha ao longo de gerações, com uma precisão técnica que nenhum manual agronômico conseguiu documentar completamente.

Entre os povos do Alto Xingu, as mulheres são as ceramistas — e a cerâmica não é apenas artesanato. É tecnologia de armazenamento de alimentos, de cozimento, de preservação do conhecimento sobre formas e padrões que carregam significados cosmológicos. Cada peça é um texto em argila, escrito numa língua que só as mulheres aprenderam a ler completamente.

Em várias culturas Tupi e Guarani, as mulheres são as pajés — ou compartilham o xamanismo com os homens numa divisão que o olhar colonial, acostumado com hierarquias masculinas, frequentemente não soube ver. As pesquisas antropológicas mais recentes têm revisado décadas de registros etnográficos feitos exclusivamente por homens, que entrevistaram exclusivamente homens, e concluíram que as mulheres não tinham papel ritual. A conclusão era a do método, não da realidade.

Disseram que as mulheres indígenas não eram lideranças. Disseram isso para os homens, nas línguas dos homens, em reuniões de homens. E enquanto diziam isso, as mulheres continuavam segurando o que precisava ser segurado.

Perspectiva da antropologia feminista indígena
II · A violência específica

O que as mulheres indígenas enfrentam que os homens não enfrentam

A violência contra os povos indígenas tem uma dimensão de gênero que raramente aparece nos debates sobre demarcação e garimpo. As mulheres indígenas são, ao mesmo tempo, alvo da violência territorial que afeta todos os povos e de formas de violência específicas — sexual, doméstica, institucional — que se somam à primeira e que muitas vezes ficam invisíveis dentro das próprias comunidades.

Os dados são graves. Pesquisas do IBGE e de organizações indígenas mostram que mulheres indígenas têm índices de violência doméstica e sexual significativamente superiores à média nacional. Parte disso é o resultado do trauma histórico e do alcoolismo que a destruição territorial gerou em muitas comunidades. Parte é o resultado de uma cultura de silêncio que, em alguns contextos, foi reforçada pela ideia de que denunciar é trair o povo.

As lideranças femininas indígenas contemporâneas enfrentam esse paradoxo diretamente — e recusam a falsa escolha entre denunciar a violência dentro das comunidades e defender as comunidades da violência de fora. Sônia Guajajara foi uma das primeiras a nomear publicamente essa contradição: não se pode pedir às mulheres indígenas que escolham entre o feminismo e a causa indígena. As duas lutas são a mesma luta.

A APIB e o movimento das mulheres

Como as mulheres mudaram a política indígena no Brasil

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil — APIB — foi fundada em 2005 como a maior organização indígena do país. Desde sua fundação, mulheres tiveram papel central em sua direção e articulação política. Sônia Guajajara, que coordenou a organização por anos, foi a candidata a vice-presidenta da República na chapa de Guilherme Boulos em 2018 — a primeira mulher indígena a concorrer a cargo nacional no Brasil.

O Acampamento Terra Livre — a maior mobilização indígena anual do Brasil, realizada em Brasília desde 2004 — viu nas últimas edições uma transformação significativa: as mulheres, que antes ocupavam posições de apoio nas delegações, passaram a ocupar os microfones, as mesas de negociação e as plenárias. Não porque os homens se afastaram. Porque as mulheres avançaram.

Em 2023, pela primeira vez na história do Brasil, uma mulher indígena assumiu a presidência da FUNAI: Joenia Wapichana, ex-deputada federal, advogada formada pela UFAM e a primeira mulher indígena a se formar em direito no Brasil. Sua nomeação não foi apenas simbólica — foi a colocação, no comando da principal instituição indigenista do país, de alguém que conhece a questão indígena por dentro, de baixo, e pelo lado que mais importa.

S Sônia Guajajara Povo Guajajara · Maranhão

Ministra dos Povos Indígenas desde 2023 — a primeira a ocupar o cargo na história do Brasil. Coordenadora nacional da APIB por anos, candidata a vice-presidenta em 2018. Construiu uma carreira política que combina articulação internacional, denúncia de violações e presença constante nas aldeias. Para Sônia, a política não é o fim — é o instrumento.

C Célia Xakriabá Povo Xakriabá · Minas Gerais

Professora, doutora em desenvolvimento sustentável pela UnB, deputada federal eleita em 2022. Cresceu num território demarcado depois de conflito que custou vidas. Levou o cerrado ao parlamento — literalmente, com penas e pinturas corporais na tribuna. Seu discurso de posse foi proferido em português e em Xakriabá. Os colegas ficaram em silêncio.

J Joenia Wapichana Povo Wapichana · Roraima

Primeira mulher indígena a se formar em direito no Brasil, pela UFAM. Defendeu o povo Wapichana e casos de violações de direitos indígenas por décadas antes de entrar para a política. Primeira mulher indígena eleita deputada federal, em 2018. Desde 2023 preside a FUNAI — transformando a instituição por dentro, com quem conhece o que ela deveria proteger.

G Grace Graúna Povo Potiguara · Nordeste

Poeta, escritora e pesquisadora. Uma das vozes mais originais da literatura indígena brasileira contemporânea. Seus livros transitam entre o português e fragmentos das línguas originárias, criando uma dicção que não se encaixa em nenhuma categoria da crítica literária convencional — e que por isso mesmo aponta para onde a literatura brasileira ainda pode ir.

D Daiara Tukano Povo Tukano · Amazonas

Artista visual, comunicadora e ativista. Suas pinturas carregam a cosmologia Tukano em formas que o mundo da arte contemporânea reconheceu como extraordinárias — sem que ela tenha precisado abandonar nada de sua origem para isso. Fundadora da Rádio Yande, a primeira rádio online indígena do Brasil. Usa cada plataforma disponível para fazer o que sempre foi feito: transmitir.

L Leonice Tupari Povo Tupari · Rondônia

Agente de saúde indígena e liderança comunitária que passou décadas construindo pontes entre o sistema de saúde estatal e os saberes medicinais do povo Tupari. Não tem cargo nacional, não tem conta com milhares de seguidores. Tem o conhecimento de quem ficou — e o respeito de quem sabe o que isso custou.

III · Os saberes

O conhecimento que as mulheres guardam

Há um tipo de saber que não entra em nenhum inventário oficial de patrimônio cultural — porque não tem forma física, não pode ser fotografado, não pode ser tombado. É o saber que vive no corpo das mulheres que o receberam das mães que o receberam das avós. O saber de como curar uma criança com febre usando o que cresce no quintal da aldeia. O saber de como preparar o parto de forma que mãe e filho cheguem juntos ao outro lado. O saber de como cantar o luto de um modo que permita que a vida continue depois dele.

A etnobotânica documentou parcialmente esse conhecimento — mas apenas o que as pesquisadoras (e foram muito mais pesquisadores do que pesquisadoras, por muito tempo) conseguiram perguntar. O que não foi perguntado porque ninguém sabia que havia para perguntar é, provavelmente, muito mais.

As parteiras indígenas são um exemplo particularmente claro. Em muitas comunidades, especialmente as mais remotas, a parteira é a figura que decide, na hora do parto, entre a vida e a morte — não metaforicamente, mas em sentido literal. Seu conhecimento sobre posicionamento fetal, sobre complicações do trabalho de parto, sobre plantas que aceleram ou retardam as contrações, foi desenvolvido ao longo de gerações de observação cuidadosa. A medicina ocidental, quando finalmente começou a estudar essas práticas, encontrou em muitas delas procedimentos que sua própria ciência só chegou a validar muito depois.

2018 Primeira mulher indígena eleita deputada federal — Joenia Wapichana
2022 Célia Xakriabá e Sônia Guajajara eleitas para o Congresso
2023 Criação do Ministério dos Povos Indígenas — Sônia Guajajara, ministra
2023 Joenia Wapichana assume a presidência da FUNAI
IV · O presente

A geração que não pediu licença

Algo mudou na última década — e a mudança tem rosto de mulher. A geração de lideranças femininas indígenas que emergiu nos anos 2010 e 2020 é diferente das que vieram antes não porque seja mais corajosa, mas porque tem instrumentos que as anteriores não tiveram: formação universitária, acesso às redes sociais, conexões internacionais com movimentos feministas e ambientalistas, e a consciência clara de que não precisam escolher entre identidades.

Célia Xakriabá discursa no Congresso com grafismo corporal Xakriabá. Daiara Tukano expõe em galerias de arte contemporânea sem abrir mão da cosmologia Tukano. Sônia Guajajara negocia com governos estrangeiros em nome de um ministério que ela mesma ajudou a criar — e volta às aldeias para prestar contas. A sofisticação política dessas mulheres não as tornou menos indígenas. As tornou mais perigosas para quem preferia que continuassem invisíveis.

Há também as que não têm nome nacional — as professoras bilíngues que ensinam nas escolas indígenas diferenciadas, as agentes de saúde que caminham horas para chegar a comunidades remotas, as lideranças locais que resolvem conflitos dentro das aldeias sem que nenhuma câmera registre. São elas que sustentam, no cotidiano, o que as lideranças nacionais representam no simbólico. Sem elas, não há movimento.

Não estamos pedindo espaço. Estamos tomando o que sempre foi nosso — a palavra, o território, o futuro. Estamos cansadas de pedir licença para existir.

Síntese do pensamento do movimento de mulheres indígenas brasileiras

Cinco capítulos,
uma história que não termina

Esta enciclopédia começou antes do Brasil existir como nome. Passou pela resistência de quinhentos anos, pela voz de Davi Kopenawa, pelas línguas que morreram e pelas que resistiram, pelos povos que o mapa político esqueceu, e chegou aqui — nas mulheres que estão reescrevendo o presente.

Não é uma história de redenção. É uma história de persistência. De povos que o Brasil tentou, de todas as formas possíveis, convencer de que não existiam — e que continuaram existindo, com tanta obstinação e tanta beleza que o país vai ter de aprender, eventualmente, a olhar para eles como o que são: não o passado que ficou para trás, mas o presente que ainda não foi completamente reconhecido.

O catálogo desta enciclopédia tem 305 nomes. Cada um é uma civilização. Cada um é uma pergunta sobre o que o Brasil poderia ser se soubesse o que tem.