Quando o Brasil pensa em índio, pensa em Amazônia. Pensa em floresta densa, em rios imensos, em povos isolados que vivem como viviam há milênios. É uma imagem real — mas é uma imagem parcial. E toda imagem parcial, quando passa por verdade completa, apaga o que não coube no quadro.
O que ficou fora do quadro são os povos do Cerrado, da Caatinga, do Pampa, da Mata Atlântica, da Restinga e do Pantanal. Povos que vivem há milênios em biomas que o Brasil destruiu com muito mais eficiência do que a Amazônia — e que por isso mesmo enfrentaram, mais cedo e com menos visibilidade, o que os povos amazônicos estão enfrentando agora. Os invisíveis dentro dos invisíveis.
Este capítulo é sobre eles. Não como curiosidade regional. Como história central — de povos que resistiram ao apagamento num território que o país decidiu, antes de qualquer outro, que podia ser tomado sem consequências.
O bioma mais rico em biodiversidade fora da Amazônia. Devastado em mais de 50% desde os anos 1960. Berço das águas do Brasil — as nascentes do Araguaia, do São Francisco e do Paraná estão aqui.
O único bioma exclusivamente brasileiro. Seco, resistente, extraordinariamente biodiverso. Subestimado pela ciência, ignorado pela política ambiental, habitado por povos que desenvolveram formas de vida que a seca não venceu.
O bioma mais desconhecido do Brasil. Campos abertos, invernos rigorosos, fronteira com Argentina e Uruguai. Devastado em mais de 60%. Os povos que o habitavam foram apagados com uma velocidade que não deu tempo nem de registro.
O berço das águas que o Brasil não soube guardar
O Cerrado foi o primeiro grande bioma brasileiro a ser sistematicamente destruído. Antes da soja chegar à Amazônia, chegou ao Cerrado. Antes do desmatamento virar pauta internacional, o Cerrado já havia perdido metade de sua cobertura original — sem protestos internacionais, sem capas de revista, sem a comoção que a Amazônia consegue mobilizar. Porque o Cerrado não tem a grandiosidade visual da floresta tropical. Tem árvores tortas, de casca espessa, com raízes profundas que sobrevivem ao fogo. Não é bonito da maneira que o mundo rico reconhece como beleza.
Mas os povos que vivem no Cerrado há milênios sabem o que ele é: o maior reservatório de água doce do Brasil. As nascentes dos principais rios do país — o São Francisco, o Araguaia, o Paraná, o Tocantins — brotam do Cerrado. Quando o Cerrado seca, o Brasil seca. Não é metáfora: as secas que têm atingido o centro-sul do país nas últimas décadas têm relação direta com a destruição desse bioma.
Os Xavante — um dos povos mais numerosos e politicamente organizados do Brasil — habitam o Cerrado mato-grossense há séculos. Sua história recente é uma das mais dramáticas do país: expulsos de seus territórios originais na bacia do Rio das Mortes pelo avanço da fronteira agrícola nos anos 1940 e 1950, foram contatados pelo SPI numa operação que misturou presentes e violência. Muitos morreram de doenças. Os que sobreviveram foram reassentados em terras que não eram as suas. Décadas depois, lutaram pela demarcação de seus territórios originais — e venceram, parcialmente, numa batalha jurídica e política que dura até hoje.
O Cerrado não é o quintal da Amazônia. É um bioma completo, com sua própria complexidade, seus próprios povos e sua própria forma de sustentar a vida. Tratá-lo como terra de segunda categoria foi o maior erro ambiental que o Brasil cometeu — e ainda está cometendo.
Perspectiva da ecologia do CerradoOs Krahô, no Tocantins, desenvolveram ao longo de séculos um sistema de manejo do cerrado baseado no uso controlado do fogo — a queima prescrita — que a agronomia ocidental só recentemente começou a estudar com seriedade. Para os Krahô, o fogo não é destruição: é renovação. As gramíneas do cerrado evoluíram com o fogo. As espécies que os Krahô cultivam e colhem dependem do ciclo de queima e rebrota que eles administram com uma precisão acumulada por gerações.
Quando o Estado proibiu as queimas indígenas — sem entender o que estava proibindo — o cerrado Krahô começou a mudar. Arbustos invasores tomaram o lugar das gramíneas. A biodiversidade animal, que dependia das áreas abertas mantidas pelo fogo controlado, diminuiu. Foi preciso uma geração de pesquisadores dispostos a ouvir antes de concluir para entender o que os Krahô já sabiam: que o fogo, nas mãos certas, é uma ferramenta de conservação.
O único bioma exclusivamente brasileiro — e o mais esquecido
A Caatinga é o único bioma do planeta que existe inteiramente dentro das fronteiras de um único país. Ela pertence ao Brasil com uma exclusividade que deveria gerar orgulho e responsabilidade. O que gerou, na maior parte da história, foi indiferença.
A palavra "caatinga" vem do Tupi e significa "mata branca" — uma descrição precisa do que acontece nas secas prolongadas, quando as plantas perdem as folhas e o sertão fica cor de osso. Mas a Caatinga não é um deserto. É um bioma de resistência: suas espécies desenvolveram ao longo de milênios estratégias de sobrevivência à seca que a biologia ainda está catalogando. O mandacaru acumula água no caule. A catingueira revive semanas depois da primeira chuva. A jurema preta tem raízes que alcançam o lençol freático a dezenas de metros de profundidade.
Os povos que habitam a Caatinga aprenderam com essas estratégias — e as incorporaram à cultura, à medicina, à culinária e à cosmologia. Os Fulni-ô, de Pernambuco, são o único povo indígena do Nordeste que preservou a língua original — o Yaathe — como primeira língua de toda a comunidade. Num contexto em que a maioria dos povos indígenas nordestinos perdeu suas línguas há séculos, esse feito é extraordinário. E não foi acidente: foi escolha política deliberada, renovada a cada geração.
A língua que o Nordeste não perdeu
Os Fulni-ô, de Águas Belas, Pernambuco, falam o Yaathe — a única língua indígena original ainda viva no Nordeste do Brasil. Não porque as outras línguas não resistiram: resistiram, por séculos, contra a colonização, o aldeamento forçado e a evangelização. Mas o Yaathe sobreviveu onde as outras não conseguiram porque os Fulni-ô construíram um mecanismo social de proteção que poucos povos conseguiram manter.
Todo ano, por três meses, os Fulni-ô realizam o Ouricuri — uma cerimônia sagrada à qual nenhum não-Fulni-ô tem acesso. Durante o Ouricuri, a língua portuguesa é proibida. Fala-se apenas Yaathe. As histórias são contadas em Yaathe. Os cantos são em Yaathe. As crianças que ainda não falam a língua com fluência saem do Ouricuri falando.
O Ouricuri é, ao mesmo tempo, cerimônia religiosa, transmissão cultural e política linguística. É um dos mecanismos de preservação de língua mais eficazes já desenvolvidos por qualquer povo — e foi inventado não por linguistas, mas por um povo que decidiu que sua língua não morreria enquanto houvesse um Ouricuri para realizá-la.
Os Xucuru, da Serra do Ororubá em Pernambuco, travaram uma das lutas mais longas e custosas pela demarcação de território no Brasil contemporâneo. Seu cacique, Francisco de Assis Araújo — o Cacique Xicão — foi assassinado em 1998 por fazendeiros que resistiam à demarcação. Sua filha Zenilda e depois seu filho Marcos assumiram a liderança e continuaram a luta. Em 2019, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil pela morte de Xicão — a primeira condenação do país por violação de direitos de povos indígenas num tribunal internacional.
É uma história de violência e de persistência. É também uma história que o Brasil raramente conta sobre si mesmo.
O bioma que o Brasil quase apagou por inteiro
O Pampa é o bioma que o Brasil mais perto chegou de destruir completamente. Campos abertos, invernos rigorosos, fronteira com Argentina e Uruguai — um ambiente que não corresponde à imagem tropical que o país faz de si mesmo, e que por isso recebeu, ao longo de cinco séculos, a atenção mínima necessária para ser devastado e a atenção máxima necessária para ser ocupado.
Os povos que habitavam o Pampa antes da colonização foram eliminados com uma velocidade que não deu tempo nem de documentação adequada. Os Charrua — o povo mais numeroso e guerreiro do sul do continente — resistiram à colonização espanhola e portuguesa por mais de dois séculos. Foram exterminados no século XIX, no que o Uruguai chamou de "Massacre de Salsipuedes", em 1831 — uma emboscada armada pelo governo uruguaio que matou a maior parte dos homens adultos Charrua e escravizou as mulheres e crianças. Os quatro sobreviventes Charrua foram levados para Paris como curiosidade científica, onde três morreram e um fugiu.
No Brasil, os Minuano e os Tape foram incorporados, eliminados ou dispersados durante o processo de colonização do Rio Grande do Sul. Hoje são povos sem descendentes identificados — língua perdida, território perdido, história perdida. Existem apenas nos registros dos jesuítas que tentaram catequizá-los e dos militares que tentaram submetê-los.
Os Kaingang e os Guarani sobreviveram no sul do Brasil — mas em condições que testam os limites do que se pode chamar de sobrevivência. Os Guarani Kaiowá do Mato Grosso do Sul vivem em algumas das áreas de maior concentração de indígenas por hectare do Brasil — territórios minúsculos rodeados por monoculturas de soja, onde as taxas de suicídio entre jovens atingiram níveis que organismos internacionais de direitos humanos classificaram como crise humanitária.
Essa crise não é misteriosa. É o resultado previsível de décadas de confinamento territorial, de destruição das condições materiais e espirituais que sustentavam a vida Guarani, e de uma política de demarcação que avançou em câmera lenta enquanto o agronegócio avançava em velocidade máxima. Os Kaiowá não estão morrendo de tristeza abstrata. Estão morrendo de uma situação concreta, com causas identificáveis e responsabilidades atribuíveis.
O que Cerrado, Caatinga e Pampa têm em comum
Três biomas diferentes, povos diferentes, histórias diferentes. Mas um fio que os une: todos foram destruídos mais rapidamente e com menos visibilidade do que a Amazônia. E os povos que os habitavam foram invisibilizados mais completamente do que os povos amazônicos — porque não tinham a floresta como aliada na narrativa internacional.
Há uma injustiça específica nisso. Os povos indígenas da Amazônia encontraram, nas últimas décadas, aliados no movimento ambientalista global — porque a floresta que defendem é um ativo climático reconhecido. Os povos do Cerrado, da Caatinga e do Pampa defendem biomas que o mundo não aprendeu a valorizar da mesma forma. Suas lutas são menos fotografadas, menos financiadas, menos conhecidas.
Mas são igualmente legítimas. E igualmente urgentes. O Brasil que não sabe o que tem no Cerrado, na Caatinga e no Pampa é um Brasil que não sabe o que está perdendo — e que vai descobrir tarde demais, quando as nascentes secarem e os campos se tornarem deserto.
Nós não vivemos na floresta. Mas vivemos na terra. E a terra é nossa da mesma forma que é de qualquer povo que a habita há milênios. O que muda é o bioma. O direito é o mesmo.
Síntese do pensamento de lideranças indígenas do Cerrado e CaatingaCélia Xakriabá — professora, doutora em desenvolvimento sustentável e deputada federal por Minas Gerais — é filha do Cerrado. Cresceu numa aldeia Xakriabá no norte de Minas Gerais, num território demarcado depois de décadas de conflito que custaram vidas. Sua eleição para o Congresso, em 2022, foi lida por muitos como vitória identitária. Ela mesma a leu diferente: como obrigação. "Fui eleita para levar o cerrado ao parlamento", disse. E foi.